Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Os quatro grandes desafios de Bolsonaro no ano que vem

Historicamente, o terceiro ano de mandato do presidente da República costuma ser de potenciais avanços estruturais. Isso porque é um período sem eleições, o que afasta as pressões dos debates políticos. Mas a concretização dos avanços depende de alguns fatores: ter uma boa agenda, possuir capacidade para articulá-la, construir uma base de apoio, saber se comunicar. Não são desafios triviais.

Neste fim de ano, esses quatro fatores, que determinarão a intensidade e a qualidade do governo em seu terceiro ano, apresentam sérias instabilidades. A primeira reside no fato de que a agenda propositiva está contaminada pelo combate à pandemia de Covid-19, cujos efeitos estão longe de terminar. Tal fato coloca o mundo político em conflito, atrapalhando a articulação de saídas para os impasses econômicos e sociais postos pela própria pandemia. O conflito gera efeitos de curtíssimo prazo (na disputa pelas presidências do Congresso) e também de médio prazo (na sucessão presidencial de 2022). Tudo ainda é alimentado pela rivalidade política em torno da primazia de vacinação contra a Covid-19. Sem definição sobre as eleições sucessórias no Congresso, a questão da base política do governo também fica pendente até o início de março de 2021. Só a partir da eleição das presidências da Câmara e do Senado, o governo redefinirá sua base, por meio de uma reforma ministerial.

Permanece a questão da comunicação. O governo sabe comunicar muito bem para os seus aliados originais, mas nem tanto para aqueles que olham apenas o desempenho, e não o debate ideológico que se instala. Existem deficiências em mostrar para o grande público o que se pretende fazer para a retomada pós-pandemia.

A sorte é que, seguindo uma tradição iniciada na redemocratização, os próprios governos têm sido seus maiores adversários: aliados ou potenciais aliados terminam criando mais dificuldades que a oposição. Sob o ponto de vista do governo, seria ainda pior se as oposições estivessem fortalecidas e unidas.

Para avançar em sua agenda em 2021, o governo tem de se sair bem nos quatro desafios que mencionei. A seu favor existem três fatores que vão ajudá-lo no início do ano: a popularidade ainda positiva, a vocação reformista do Congresso e a divisão da oposição. Mas tais aspectos podem não perdurar.

No entanto, sem comprovar capacidade de articulação, as dificuldades vão ser crescentes, devido às incertezas na economia e seus eventuais reflexos negativos na popularidade do presidente. O que nos coloca diante de um dilema: o presidente Jair Bolsonaro vai governar para ser popular ou para enfrentar nossos desafios?

Como a cenografia da política em 2021 apresenta aspectos únicos provocados pela maligna aparição da pandemia e pelas contradições internas do governo, esperar grandes avanços seria excesso de otimismo. Porém, o futuro é imprevisível. Pode ser que meu ceticismo não se concretize. O acaso sempre aparece para contrariar as previsões. Esperamos que a boa fortuna nos abençoe, tornando o novo ano bem melhor do que este, que ora se encerra.

Texto publicado na Veja dia 11/12/2020

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.