Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O fim da pandemia e o desempenho econômico ainda são incógnitas

O tradicional balanço de ganhadores e perdedores do resultado das eleições municipais não assegura pistas firmes para a sucessão presidencial, já que a agenda das eleições municipais foi predominantemente local. Muitas das escolhas foram ditadas por questões paroquiais, e até mesmo o ímpeto renovador das eleições de 2018 foi arrefecido pelas agendas locais. Nem mesmo a pandemia transformou a disputa em um plebiscito.

No balanço das eleições alguns nomes e tendências foram apontados como vencedores e perdedores. Alguns deles claramente se inserem no campo de derrotados e terão dificuldades adicionais para construir narrativas competitivas para 2022.

O caso mais emblemático é o do Partido dos Trabalhadores (PT), que — entre os partidos mais tradicionais — teve, de longe, o pior desempenho. Os resultados pífios revelaram não só um descompasso com a realidade mas também uma dificuldade de criar uma narrativa convincente.

O centro político, com razão, é apontado vencedor da disputa. Mas o centro é composto de vários núcleos de poder e que estão cindidos em relação ao governo. Qual centro predominará para liderar uma alternativa à polarização? É cedo para dizer. A união do centro em torno de uma candidatura competitiva ainda é uma incógnita.

As urnas expressaram moderação e continuísmo. No entanto, tais resultados também se referem ao bom desempenho dos reeleitos ou de suas estruturas políticas, a aderência às agendas locais e, ainda, a ausência da pressão mediática da Operação Lava- Jato, que, como disse, reduziu o ímpeto renovador.

Qualquer avaliação das eleições deste ano deve ser examinada a partir de condições típicas e especificas do momento político nacional. A questão se torna mais complexa ao se olhar para o futuro. Existem agendas em aberto que vão influir decisivamente na temperatura política dos próximos meses.

A primeira refere-se à pandemia de Covid-19. A proximidade da vacinação anima a todos. Mas os efeitos econômicos e políticos de uma vacinação em massa ainda são imprecisos e sem data certa para se revelarem de forma positiva.

O Brasil tem, a grosso modo, três grupos de eleitores: os aderentes às narrativas ditas progressistas, os considerados conservadores e um eleitorado mais autônomo em relação aos dois grupos. Esses são considerados genericamente centristas.

Com a incerteza da recuperação econômica, um vetor de influência no eleitorado também fica em aberto. Muitos eleitores vão sentir a sensação térmica da economia na circunstância eleitoral para se decidir. São os não engajados que decidem as eleições no Brasil.

Considerando que o eleitor de centro é quem decide, as pistas de 2018 mostram que a conjuntura será determinante para a escolha do vencedor em 2022. E ela está submetida ao fim da pandemia, aos caprichos da economia e ao saldo entre erros e acertos do governo.

Texto publicado na Veja dia 4/12/2020

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.