Desde antes de ser eleito, o presidente Jair Bolsonaro tem adotado a esquerda como principal adversária política. Em seus discursos, sempre creditou seus posicionamentos mais radicais ao combate à esquerda e ao comunismo. Apesar desse antagonismo ser próprio da ideologia de Bolsonaro, o posicionamento também funcionou de forma a mobilizar seu eleitor, em um contexto de antipetismo crescente. Mas na corrida para 2022, Bolsonaro pode enfrentar uma situação inédita para ele: pode ter como principal adversário não um candidato da esquerda, mas sim um de centro.

Apesar dos partidos de esquerda já estarem em queda em 2018, quando Bolsonaro foi eleito, o pleito municipal de 2020 sagrou o arrefecimento dessas legendas. O PT, pela primeira vez em sua história, não elegeu prefeitos em capitais. Para o cientista político e vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, esse cenário obriga Bolsonaro a reformar seu discurso.

“O grande desafio de Bolsonaro é que a esquerda saiu fragilizada. Então aquele antagonismo contra a esquerda talvez não tenha tanto efeito em 2022. Bolsonaro vai precisar recolocar o foco dele, da esquerda para o centro. Contra o centro não adianta adotar um discurso radical então ele vai precisar ter um discurso mais equilibrado”, analisa Noronha na live semanal Política Brasileira.

Outra arma política que serviu a Bolsonaro em 2018 e pode ter menos resultado em 2022 é o discurso da renovação política. Quando estava em campanha, Bolsonaro se posicionava como “o candidato da mudança”, em oposição a políticos tradicionais. Nas eleições municipais de 2020, a situação é outra: com o “esfriamento” da Operação Lava-Jato, a rejeição a políticos experientes diminuiu, favorecendo candidatos a reeleição. Dos 13 prefeitos de capitais que entraram na disputa por um novo mandato, 10 foram reeleitos.

“O presidente tem o desafio de criar uma nova narrativa. Essa ideia de renovação, da anti-política, não se provou muito eficaz nas eleições municipais. O discurso anterior dele perdeu força e esse relacionamento com o centro vai ser crucial”, acrescenta o cientista político Michael López.