A última semana foi de pesada negociação para o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Na reta final de seu mandato como presidente da casa, o deputado articula a criação de um bloco que una partidos de centro e esquerda em volta de uma candidatura competitiva contra Arthur Lira (PP-AL), líder e candidato do Centrão, grupo atualmente aliado do presidente Jair Bolsonaro.

No fim de semana passado, o presidente da Câmara esteve no Ceará para conversar com Camilo Santana (PT), Ciro e Cid Gomes (ambos do PDT), além de parlamentares dos dois partidos. Cid saiu da reunião otimista – disse que os dois lados tem interesse em formalizar o bloco parlamentar.

Porém, na última terça-feira (24), Maia se reuniu com os seis candidatos à presidência da Câmara que está disposto a apoiar. Estiveram na residência oficial Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), Marcelo Ramos (PL-AM), Baleia Rossi (MDB-SP), Luciano Bivar (PSL-PE), Marcos Pereira (Republicanos-SP) e Elmar Nascimento (DEM-BA). Maia disse que, mesmo que o STF permita sua candidatura, não tem interesse de disputar a eleição. Também jogou a responsabilidade pela organização do grupo para os candidatos: disse que eles deveriam conversar entre si e escolher somente um postulante entre eles.

Como Maia decidiu deixar na mão dos postulantes a escolha de qual deles será o candidato de oposição a Arthur Lira, o resultado pode desagradar a esquerda.

Convencer os deputados será tarefa difícil. O PT, por exemplo, ainda não bateu o martelo sobre o apoio. A questão começaria a ser discutida em uma reunião nesta semana que acabou adiada para segunda-feira (30). Segundo o líder do PT na Câmara, deputado Enio Verri (PR), o adiamento ocorreu a pedido de parlamentares petistas que concorrem a prefeituras em segundo turno e não poderiam participar da decisão por estarem envolvidos em campanha. O PCdoB também deve se reunir para discutir o assunto na próxima semana. A tendência é que os partidos esperem a definição de um candidato antes de embarcarem na aliança – o que deve acontecer até 15 de dezembro, de acordo com prazo dado por Maia.

Saiba mais:

Deputados do PT consultados pela reportagem explicaram a questão que divide o partido: enquanto há parlamentares que concordam que o partido deve compor uma aliança ampla para evitar que a Câmara tenha como presidente um aliado de Bolsonaro, por outro lado, há o receio de que essa aliança leve à presidência um candidato liberal que agilize as privatizações, por exemplo.

A questão foi resumida pelo deputado Afonso Florence (PT-BA), em entrevista ao Brasilianista:

“Claro que vou seguir o que for orientado pelo partido, mas o assunto não é Bolsonaro, o assunto é a pauta a ser priorizada. Essa base ampla de Bolsonaro, que vai do DEM ao PP, passando pelo PSL e setores de partidos de centro, que votaram a reforma previdenciária e a reforma trabalhista, muitos votaram também a favor do golpe [impeachment de Dilma Rousseff em 2016]. Eles tiraram direitos. Eu e vários parlamentares, não só do PT, consideramos que a discussão da presidência da Câmara tem a ver com a pauta dos próximos dois anos e, por isso, o assunto não é de ‘quem é de Bolsonaro’ e ‘quem não é’, mas qual é a agenda defendida”, afirmou.

Nessa conjuntura, nomes que vinham sendo cotados, como o de Luciano Bivar (PSL-PE), acabam sendo prejudicados. A indicação de Baleia Rossi (MDB-SP) também perde força, já que o partido teve papel chave no impeachment de Dilma.

Florence também defende que os cargos da mesa diretora sejam ocupados respeitando o preceito da proporcionalidade – no qual cada partido, de acordo com seu tamanho, teria direito a uma posição na mesa.

Contabilização de votos

O objetivo de Maia é unir, pelo menos, DEM, PSDB, MDB, PSL, Cidadania, PT, PCdoB, PDT e PSB. Juntos, esses partidos têm 276 deputados. Para conseguir eleger um presidente da casa, são necessários 257 votos. PV, PTB e Pros também são contabilizados por Maia, os últimos dois por conta da aliança com o PSL, totalizando 315 votos.

O número seria suficiente para fazer frente ao Centrão, que hoje é composto pelos 135 deputados do PL, PP, PSD, SOLIDARIEDADE e AVANTE.

Contudo, não há certeza sobre quantos votos do PSL, PTB e PROS iriam para o candidato de Maia e quantos iriam para o candidato de Bolsonaro, já que os três partidos têm dentro de si uma ala fiel ao presidente da República. Atualmente, eles formam um bloco que se diz governista, com 62 deputados.

Sem o PT e o PCdoB, o grupo de Maia perderia 63 votos, sobrando 252, isso em um cenário hipotético com o apoio total do PSL. Se forem descontados os deputados fiéis ao presidente, o número pode ser ainda menor.