Foto: Marcello Casal Jr/AgenciaBrasil

De acordo com a agência, no momento da decisão não haviam dados para sustentar que a morte não havia sido causada pela imunização

Frente a suspeitas de interferência política na decisão de suspender os testes da vacina chinesa produzida pela Coronavac, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) veio a público na tarde desta terça-feira (10) para defender que o procedimento tomado foi correto. Na segunda-feira, a Anvisa decidiu suspender os testes ao receber uma notificação de um “evento adverso grave” – um voluntário morreu.

Posteriormente, o Instituto Butantan, que participa da pesquisa, divulgou que o óbito não tinha relação com o medicamento. Foi divulgado um laudo do IML que mostra que a causa da morte foi suicídio.

Rapidamente, o tema ganhou contornos políticos. Um comentário do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais resgatou a rivalidade com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, diz na publicação. Em seguida, o secretário-executivo do Centro de Contingência do combate ao coronavírus no Estado de São Paulo, João Gabbardo dos Reis deu entrevista questionando a decisão e dizendo que era uma tentativa de “desmoralizar” o imunizante.

Dados insuficientes

Em um discurso em tom firme, o diretor presidente da Anvisa, Antônio Barras Torres, disse que a decisão foi tomada porque, na primeira informação enviada pelo Instituto Butantan, não haviam dados suficientes para saber se a morte teria sido ou não gerada pelo medicamento.

“Não é brincadeira atestar que uma vacina pode ser dada a uma pessoa. Isso não pode ocorrer havendo dúvida. Uma dúvida, que pra ser tirada, documento claros, preciso e completos precisam nos ser enviados – o que não aconteceu”, defendeu Torres, lembrando que não é a primeira vez que os testes de uma vacina são suspensos. Em setembro, a vacina desenvolvida pela vacina de Oxford também foi suspensa depois que um dos voluntários apresentar uma reação adversa.

De acordo com Torres, a decisão foi tomada pela equipe técnica do órgão e não houve ingerência de membros da agência que são indicados políticos, como o próprio diretor-presidente. O órgão optou por não comentar as declarações feitas por políticos.

O que o cidadão não precisa hoje é de uma Anvisa contaminada por uma guerra política

Antônio Barras Torres, presidente da Anvisa

“O que o cidadão não precisa hoje é de uma Anvisa contaminada por uma guerra política. A guerra existe, mas precisa ficar do muro para fora. Dê a César o que é de César e a Deus o que é Deus”, disse.

De acordo com o gerente geral de medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes, somente dados oficiais podem ser usados para pautar a suspensão ou não dos testes.

“A politização põe em cheque nosso trabalho. Pedimos que o trabalho técnico seja respeitado. Nosso compromisso é dar transparência e segurança que estamos zelando pelas melhores informações. Ao final queremos uma vacina segura, eficaz e que tenha qualidade”, disse. “Tomaremos as medidas necessárias para dar essa segurança e essa garantia, ainda mais nesse momento em que há um questionamento das vacinas”, argumentou o técnico. “Na dúvida é melhor não arriscar”, pontuou.

De acordo com a Anvisa, a decisão pode ser revista assim que as informações oficiais forem recebidas pelos “canais corretos”.