Nesta semana o mundo vai conhecer o nome do próximo ocupante da cadeira presidencial na Casa Branca. O resultado tem potencial de mudar a política externa de um dos países mais ricos do mundo e, inclusive, mudar a forma como os Estados Unidos se relacionam com o Brasil e outros países latino-americanos.

Nos últimos dois anos, a convergência entre Bolsonaro e Donald Trump tem posicionado o Brasil em posição privilegiada quando o assunto é a relação diplomática com os EUA. O apoio do líder norte-americano à inclusão do Brasil na OCDE é um dos resultados que podem ser apontados.

Com a possibilidade de vitória de Joe Biden, como apontam as pesquisas mais recentes, surge a preocupação sobre como uma possível mudança de direção na política externa dos EUA pode afetar o Brasil. Para o mestre em relações internacionais e analista político da Arko Advice, Thiago de Aragão, uma eventual vitória de Biden não significa atrito imediato dos EUA com Bolsonaro.

“A relação com o Brasil dependerá mais da postura inicial de Bolsonaro em relação à Biden do que vice-versa. O Brasil não está entre as dez prioridades globais americanas e seguirá assim com Biden”, avaliou Aragão em coluna no Estadão. “Caso Bolsonaro inicie a relação com gestos amigáveis, a tendência é que continue assim, mesmo sem os afagos públicos e elogios como ocorreu com o atual presidente americano”, conclui.

Contudo, Bolsonaro pode ter que respirar fundo para ouvir algumas críticas do partido Democrata, caso sejam endossadas por Biden. “Deputados do Partido Democrata tendem a ser mais agressivos com Bolsonaro”, lembra.

Por outro lado, uma possível vitória de Trump pode aumentar a demanda de que o Brasil adote alguns alinhamentos com o parceiro norte-americano. É o caso do leilão do 5G. Trump quer que o Brasil proíba o uso de equipamentos da Huawei, que, segundo ele, podem ser usados para espionagem. Contudo, não é do interesse do Brasil se indispor demais com a China, a principal parceira comercial do país. “Caso o brasileiro tome uma postura contra a Huawei, ele dificilmente tomará alguma outra atitude mais robusta contra a China e seguirá tentando equilibrar os dois lados”, afirma Thiago.

Questões ambientais

Enquanto Donald Trump deve continuar sua postura negacionista no que diz respeito à mudança climática, Biden deve dar centralidade ao tema em sua política externa – o que deve gerar atrito com Bolsonaro. “Seus assessores de origem latino-americana mencionam linhas de crédito e pacotes de financiamento para projetos de transição energética”, lembra Aragão.

Uma das ações já anunciadas por Biden que pode não pegar bem com Bolsonaro é um pacote internacional de US$ 20 bilhões para a preservação da Amazônia. O valor foi prometido durante debate eleitoral em setembro. Biden disse que o Brasil sofrerá “consequências econômicas significativas” caso não pare a degradação ambiental.