Foto: Adriano Machado/Reuters

Termina no dia 31 de dezembro o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais. Tanto o governo quanto o Congresso defendem a implementação de um programa que o substitua. O presidente Jair Bolsonaro chegou a dizer (15/09) que o assunto estava proibido até o fim do seu mandato, após o secretário especial do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, defender a desindexação de aposentadorias e pensões. Na ocasião, Bolsonaro disse que não tiraria recursos de pobres para transferir a paupérrimos. Diante da importância do tema para seu futuro político, porém, ele voltou atrás. E, agora, há imensa pressão junto ao Ministério da Economia para que sejam apontadas as fontes de financiamento. A importância do tema para Bolsonaro é clara. Há dois cenários: um com o Renda Cidadã e outro, sem.

Pelos dados do IBGE, o desemprego está em patamar elevado. Entre maio e julho, chegou a 13,8%. Embora o Ministério da Economia afirme que as atividades econômicas já estão sendo retomadas em V, ainda há muita incerteza. Mesmo diante do aumento do desemprego e da queda do PIB, o auxílio emergencial foi crucial para manter a popularidade de Bolsonaro em alta. Hoje, cerca de 40% da população avalia o governo como “ótimo” ou “bom”. Com o Renda Cidadã em vigor e a Economia recuperando, ainda que numa velocidade menor, a popularidade de Bolsonaro poderia ser mantida ou até mesmo aumentada.

Fariam também com que se consolidasse o apoio do eleitor de baixa renda a Bolsonaro, em especial no Nordeste, reduto eleitoral do PT, e aumentasse de forma considerável sua chance de reeleição. Apesar de a popularidade de Bolsonaro ter avançado no Nordeste, a região se mantém com o menor percentual de apoio ao governo: apenas 33% avaliam a gestão como ótima ou boa, ao passo que 40% confiam no presidente e 45% aprovam sua maneira de governar (Ibope, 17 a 20 de setembro).

Sem o Renda Cidadã e com o desemprego elevado, a avaliação é que o risco de tensão social pode aumentar e a popularidade do presidente sofrer uma queda. No auge da pandemia (maio), pesquisa XP/Ipespe mostrava que 48% avaliavam o governo como “ruim” ou “péssimo”. Apenas 27% o consideravam “ótimo” ou “bom”. Hoje, a avaliação é de 35% e 40%, respectivamente. Seria um ambiente propício para manifestações de protesto. O custo político de aprovação das reformas aumentaria drasticamente e os novos aliados do presidente poderiam ser cooptados por adversários, tornando sua reeleição mais difícil.

Texto foi publicado na Istoé dia 9/10/2020