Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Apesar do cenário econômico adverso, a popularidade do presidente Jair Bolsonaro se mantém em patamares elevados. Mesmo assim, o presidente tem uma série de desafios pela frente, principalmente na área social e, mais especificamente, envolvendo o emprego.

De acordo com a pesquisa CNI/Ibope, divulgada no fim de setembro, na avaliação das áreas de atuação do governo, 60% dos entrevistados desaprovaram a atuação do governo no combate ao desemprego. Apenas 37% consideraram o desempenho do governo positivo na área.

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em agosto, o país registrou cerca de 12,9 milhões de desempregados. Com isso, a taxa de desocupação ficou em 13,6%, a mais alta no acumulado mensal desde então.

Como a popularidade de Bolsonaro está concentrada sobretudo nos setores de menor renda e escolaridade — em sua maioria trabalhadores informais e beneficiados pelo auxílio emergencial —, o tema do emprego será um importante desafio para o governo nos próximos meses.

Mesmo que a redução do valor do auxílio de 600 para 300 reais não tenha impactado negativamente a popularidade do presidente, a flexibilização do isolamento social está levando muitos desempregados a sair para procurar trabalho.

Como a oferta de vagas, mesmo com a retomada da atividade econômica, deve ser menor que a procura, poderá ocorrer um aumento da insatisfação social com a gestão do governo nessa área.

Isso ajuda a explicar o debate em torno da possível concessão de duas parcelas extras para quem for demitido sem justa causa. Se o benefício for concedido, a medida deverá atender cerca de 6 milhões de pessoas, com um impacto nas contas públicas calculado em 16,1 bilhões de reais.

É por causa desse cenário social que a criação de um programa de transferência de renda em substituição ao auxílio emergencial — que terminará em janeiro — será fundamental para Bolsonaro não perder o apoio que tem hoje.

Da mesma forma que a proposição de programas que estimulem investimentos em habitação, saneamento, irrigação e construção pesada.

Como Bolsonaro tem sua aprovação ancorada em segmentos diretamente impactados pela economia, medidas que ajudem a amenizar as consequências sociais da pandemia gerada pelo coronavírus devem ser vistas cada vez com mais simpatia pelo núcleo político do governo.

Nesse cenário, novos embates com a equipe econômica, atenta à questão fiscal, podem acontecer, principalmente se não for possível aprovar no Congresso novas fontes de recursos para financiar tanto os programas sociais quanto os investimentos em infraestrutura.

Paradoxalmente, a popularidade retumbante de Bolsonaro se deve, em parte, às políticas de Guedes. Seu sucesso, porém, não tem sido suficiente para conter uma crescente impaciência do governo com a equipe econômica em viabilizar verbas para projetos e iniciativas.

Publicado na Veja em 2/10/2020

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.