Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Se a rivalidade é marca intrínseca da política, o ódio é sua nódoa destruidora. Nesses templos de aflição coletiva, o sentimento embala o comportamento social impregnando a política. Todos têm certezas absolutas, donde brota a intransigência e a intolerância, retroalimentando o ódio. Bloqueiam-se o diálogo e a razão

 

Talvez o sentimento mais abrangente que embala o Brasil atualmente seja o ódio. Na política e no comportamento social, a hostilidade passa à frente do colóquio, do debate, da troca ideias, da confrontação de pensamentos.

As motivações dos que odeiam já existiam. Essencialmente, discordar do comportamento, do pensamento e das ações dos outros. Provavelmente, o ódio já hibernasse.

De tempos para cá, porém, odiar se tornou ostentoso e referência de comportamento. Desprezar, execrar, desejar o mal, ter aversão e repugnância de outrem.

Odiar embacia as atitudes, torna-as irrefletidas. Os gestos, automatizados.

Tirante situações extremas, o ódio é mau conselheiro e propulsor da irracionalidade de nossos impulsos. Estiola a racionalidade, aborta pensamentos lúcidos.

No Brasil hodierno, o ódio se despe com desenvoltura nas relações interpessoais e na política da planície, a dos eleitores. Um contingente de brasileiros odeia outro contingente, que retribui em doses proporcionais, retroalimentando-se. (Na política da ribalta, a dos políticos profissionais e longevos, o tempo costuma calejar as emoções.)

Afora o atavismo, dois aspectos impulsionam este sentimento. O atual mandatário e as redes antissociais, embora não sejam os causadores, maximizam as atitudes de aversão e desprezo.

A internet, exercício de ódio a distância, torna mais fácil destilar a repulsa extremada pelo adversário. Aos poucos, o degenerativo sentimento se cristaliza e fica irreversível. Pensadores divergentes convertem-se em inimigos inconciliáveis. Trocam o debate por insultos e agressões.

Pelo peso de seu cargo e por sua representatividade singulares, o presidente da República ajuda a esparramar a sensação de repulsa pelos adversários. Seus gestos e falas distanciam-se, por milhões de dislikes, por exemplo, dos ideais resumidos da Revolução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade.

Não se viu e não se vê atitude que caracteriza estadistas, de buscar a união e a convivência pacífica. Divergentes ideologicamente, não vamos chegar a consensos sobre o que fazer, mas podemos perseguir regras civilizadas de convivência e, quiçá, lá na frente, utópica harmonia.

À gestualidade belicosa e explícita do bolsonarismo contrapõe-se comportamento também escaldado em ódio do seu reverso, parte da chamada esquerda. Nesta, o ódio ganha ares intelectualizados, esnobes, mas não menos doloso.

Em comum, os dois lados carregam a convicção de que estão do lado certo da história, que sabem o que é melhor para os demais viventes. O adversário, portanto, está errado, nada tem a contribuir, resta-lhe subjugar-se ou ser subjugado. A moderação, o bom senso e o diálogo se esvaem.

Não se avança sem convicção e determinação. A certeza absoluta, porém, é nociva. Não há ciência se não há dúvida. Não existe política construtiva e democrática se as decisões já estão tomadas e a oposição é desconsiderada.

O Brasil movido a ódio consolida-se como a marca de nossos tempos. A meta é eliminar, esmagar, destruir os contendores. Sem a hipótese de convivência pacífica e respeitosa. Tolerância e fraternidade, nem pensar.