Foto: Agência Brasil

O livro de Larry Rohter sobre o marechal Cândido Rondon (Uma Biografia, editora Objetiva, 2019) nos impõe uma reflexão. Como alguém tão relevante na história do Brasil tem o seu valor social tão pouco reconhecido? Fora dos círculos específicos, Rondon é lembrado apenas pelo apreço que tinha aos índios e pelo projeto que leva universitários ao sertão bruto e às florestas e que ganhou seu nome.

Poucos sabem de sua tarefa monumental de ligar o Brasil com redes de telégrafo através das florestas, além de visitar regiões nunca desbravadas. Quais as causas da falta de admiração por Rondon? Uma delas, sem dúvida, é a de ter sido militar e partícipe ativo dos movimentos republicanos e do tenentismo, além de ser positivista. Tais fatos o colocam em uma situação desfavorável em meio à “intelligentsia” nacional.

Exaltado no regime militar, Rondon não poderia ser também festejado pela oposição, que adota a estratégia de “desinstitucionalizar” o que não interessa ao projeto político das esquerdas. Por que prestigiar os militares que, no limite, sempre foram a barreira essencial à esquerdização no país?

A pouca valorização de Rondon nos revela que certos heróis são considerados desnecessários por não interessarem aos círculos que se veem como progressistas. Tais grupos tampouco lembram que o Exército foi capaz de educar, formar e promover a marechal, por seus méritos, um mestiço que saiu dos confins do Brasil para desbravá-lo e integrá-lo. Talvez nenhuma instituição tenha sido mais importante para incluir os desfavorecidos na sociedade brasileira.

A relativização do herói nacional também atinge aqueles que deveriam ser exaltados pelos politicamente corretos, mas não o são. É o caso do engenheiro e abolicionista André Rebouças, que, por ser monarquista, teve seu papel diminuído na República. Mesmo tendo resolvido o problema do fornecimento de água no Rio de Janeiro, ter inventado armas utilizadas pelo Brasil na Guerra do Paraguai e ter projetado e construído a ferrovia Curitiba-Paranaguá, em uso até hoje.

Ao não reconhecer Rondon e Rebouças em sua dimensão, o Brasil mostra uma face parcial, tendenciosa e autoritária. Ou seja, se não é a favor de meus interesses não merece admiração. No raso, a manipulação dos heróis e, em alguns casos, a redução de sua importância são a forma de contar a história a favor de uma causa. O que está mais para estória do que para história.

Bertolt Brecht disse que “feliz o país que não precisa de heróis”. Em um cenário ideal, sem heróis, todos seriam heróis. Porém, em tempos de predomínio da geração Y, o heroísmo está mais identificado com o sucesso individual do que com o esforço coletivo, do qual depende o futuro de uma nação.

Ao longo da pandemia de Covid-19, milhares de pessoas têm se dedicado a cuidar dos infectados, enterrar os mortos e manter o país em funcionamento. Devemos olhar para esses heróis públicos e anônimos. Uma nação é feita de exemplos e de referências, como Rondon e muitos outros. Acima de preferências ideológicas e de projetos de poder.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.