Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O físico Erwin Schrödinger desenvolveu em 1935 um experimento mental no qual, teoricamente, um gato seria colocado dentro de uma caixa com partículas radioativas circulando ou não dentro do espaço no qual o bicho se encontra. Pela lógica da mecânica quântica, se o gato for considerado uma partícula, ele estaria ao mesmo tempo vivo e morto. Esse paradoxo seria aplicado ao observador de fora tornando o estado quântico do gato válido apenas se o observador consegue ver o que está acontecendo.

Bom, salvo todas as distâncias entre a mecânica quântica, esse exemplo pode ser usado metaforicamente para explicar uma característica única na recente política brasileira e o contínuo fenômeno Jair Bolsonaro, mesmo após dois anos à frente de seu governo.

Na política, o comportamento de uma pessoa é definida pela observação de suas ações, narrativas, histórico de ideias, desejos futuros e percepção de quem está de fora. Bolsonaro conseguiu se inserir em um perfil único dentro da política no qual ele é e não é um político ao mesmo tempo.

A bomba nuclear da Lava Jato eliminou grande parte do meio político que carregava um comportamento relativamente previsível de suas ações e posicionamentos. A hecatombe que dissolveu nomes políticos históricos foi um marco nacional na guerra contra a corrupção e (parcialmente) contra a impunidade. A narrativa pós-Lava Jato desenvolvida por Bolsonaro ancorou-se na rejeição da política tradicional e na inauguração de uma “nova forma de fazer política”.

Na prática, vimos que a política tradicional não foi inteiramente eliminada, nem ocorreu uma a criação de uma nova forma de fazer política. Bolsonaro não representa um grupo, representa a si mesmo com um incrível poder de fluidez entre o que era visto como a “velha política” e a percepção do que é a “nova política”.

Quando ocorre alguma vitória relevante por parte do governo (e reformas, aprovações complexas no Congresso etc.), o presidente adota a linha de que isso só foi possível por conta da sua habilidade de construção de uma nova forma de fazer política. Quando surge uma derrota (em vetos, rejeições por parte do Congresso, crises e demissões), Bolsonaro habilmente se esquiva e coloca falhas na conta da velha política.

Ao mesmo tempo, ele é um político que rejeita a política como forma de se fortalecer politicamente. Esse paradoxo não é necessariamente uma construção planejada por parte do presidente, mas um comportamento intuitivo baseado no perfil do eleitorado robusto que o apoia. Assim, a política se torna um mecanismo de aprovação e uma justificativa para as falhas produzidas pelo governo.

Entre investidores estrangeiros, essa postura aparece um pouco confusa, pois, como mencionei em outros artigos, a previsibilidade (ou o mais próximo que se pode chegar a ela) é o combustível essencial para investir em um ambiente incerto e complexo como o Brasil.

A política, na visão do investidor, precisa navegar de forma quase desinteressante para que os atributos particulares das oportunidades de investimento se tornem atrativas. Quando o ambiente político se torna imprevisível, toda a cadeia de oportunidades incorpora essa imprevisibilidade e adiciona barreiras de análises para investimentos.

A personificação do liberalismo na figura de Paulo Guedes não ocorreu espontaneamente pelo lado dos investidores. Essa personificação foi construída por Bolsonaro ao longo da campanha, colocando um excesso de responsabilidade no ministro, levando investidores a ouvir e ler cada frase do ministro como uma bússola indicando que pode acontecer no Brasil no caminho para um ambiente melhor de negócios.

À medida que Guedes encontra dificuldades de executar o que diz e, principalmente, tem em Bolsonaro um aliado conceitual, mas não prático, o investidor inclui promessas como fatores de risco e não mais como fatores de oportunidade. A distância entre o que é dito e o que ocorre é grande e segue aumentando. Bolsonaro consegue se proteger, pois, como mencionado acima, ele consegue convencer seu eleitorado de que ele é parte integral da solução e apenas uma vítima do fracasso de suas próprias políticas.

As reformas sairão de uma forma ou outra. Os elementos aprovados da reforma tributária e da reforma administrativa cairão no saldo positivo do presidente por conta da habilidade intuitiva de incorporar vitórias. Já os elementos positivos excluídos das reformas cairão no saldo negativo do Ministério da Economia, não por culpa deles, mas pela configuração política que o presidente conseguiu criar.

Paulo Guedes foi eleito como o para-raios do que não avança, enquanto Bolsonaro se fortalece como o para-raios do que avança. Essa divisão tende a ser injusta com o Ministério da Economia, pois Ministério e Presidência são uma unidade indissociável na criação do governo Bolsonaro.

Quando o presidente se torna um político que rejeita a política, ele se encontra no melhor dos mundos, pois desenvolveu o mecanismo de colheita positiva e ao mesmo tempo de distribuição dos equívocos na figura dos Ministérios, Congresso e Judiciário.

Publicado no Estadão dia 17/09/2020

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.