Artigo por Marcelo Bechara Hobaika*, publicado originalmente no site do autor.

Mal os efeitos da crise de 2008 estavam finalmente sendo absorvidos, surge a pandemia como um tsunami na economia global jogando na lona PIBs, empregos e vidas. E mais uma vez estamos a discutir a crise do capitalismo, mesmo que acentuado por razões sanit7árias.

Foi em 2008 com o colapso no setor imobiliário somado à perda de empregos e moradias nos EUA que a economia compartilhada do Airbnb e do Uber ganhou impulso. Muitos ficaram surpresos com a velocidade que a tech de transporte por aplicativo ultrapassou o valuation da secular General Motors. O descrédito no sistema financeiro central fomentou ainda outras tecnologias como o blockchain, criptomoedas e criptoativos. A montanha-russa do Bitcoin emergiria. Em toda crise surgem inovações.

A crise de 2020, contudo, afetou diretamente essas mesmas empresas da economia compartilhada, estrelas da crise de 12 anos atrás, em razão do distanciamento social imposto pelo novo Coronavírus. Se a Gig Economy explode em 2008 é o comércio eletrônico, os serviços de suporte ao home office, os games, as redes sociais, os serviços de streamings e a educação à distância que avançam esse ano.

Inovar é imprescindível diante de um período de incertezas e de retração na economia provocadas pela pandemia. Não por acaso o Mercado Livre já ocupa a posição de empresa mais valiosa da América Latina. A empresa de games Wildlife atingiu o valor de três unicórnios e o Zoom teve um crescimento quântico de usuários e de valuation em poucos meses.

O Pós-Capitalismo que se discutia em decorrência de 2008 era justamente baseado na economia de dados e da abundância, com compartilhamento de bens e foco nas experiências e serviços. A música, por exemplo, deixou de ser produto com a compra de álbuns e faixas e passou a ser serviço por assinatura, assim como bibliotecas de filmes e séries. Isso, aliás, cresceu ainda mais nessa pandemia em razão do confinamento de bilhões pelo mundo.

Contudo, o resultado pós-Covid-19 é assustador para outras indústrias e serviços. Eventos, bares, restaurantes e turismo derreteram e buscam perspectivas de sobrevivência. Muitos já cerraram portas e não voltam mais. A economia informal revelou a precarização e as vulnerabilidades sociais se acentuaram.

O empobrecimento de populações já não é mais possibilidade, porém certeza. A vida é vista pela sua forma mais frágil, na medida em que países enfrentaram e enfrentam colapso em sistemas de saúde. Eu, como filho de libanês, ainda sinto um nó na garganta e um aperto no peito com as imagens aterrorizantes da explosão e a onda de choque que devastaram uma parte de Beirute com consequências para todo o país, que já lutava contra a pandemia, a corrupção e deterioração absoluta da economia.

Assim como resposta à quebra da bolsa de NY em 1929, movimentos populistas e nacionalistas também encontraram ambiente de desenvolvimento no Século XXI, liderados por personalidades fortes e discursos ufanistas. Um questionamento legítimo da população que se sentiu abandonada pelas promessas de um mundo globalizado, mas que concentrou conhecimento, entretenimento e sentimento de “cidadãos do mundo” para poucos. Não são muitos os que se reconhecem em casa nas grandes metrópoles como Londres, Nova York ou São Paulo sobre seus patinetes elétricos, heavy users de aplicativos para tudo, praticantes de mindfullness, yoga, crossfit, bebedores de cervejas artesanais, carregando suas wallets de criptos e airpods. E tudo registrado por selfies e posts de suas vidas perfeitas.

A velha narrativa da luta de classes empunhada décadas a fio por movimentos sociais, hoje divide espaço com a luta por pertencimento na Sociedade da Informação, mas sem Conhecimento. Cidades que viviam de indústrias tradicionais não foram apenas largadas pela exportação da mão-de-obra para China, Vietnã ou Indonésia, mas pelo acesso à cultura e à educação.

As perspectivas de trabalho futuro em um mundo de Inteligência Artificial, Machine Learning e robôs parece uma barreira também para moradores de periferias. Os gig workers que ao dirigir seus carros particulares estremeceram o mercado dos centenários táxis, estão prestes a serem eles as vítimas da disrupção, em bem menos tempo, por carros autônomos e drones para transporte de mercadorias e pessoas. E é nesse contexto de incertezas que polarizações e animosidades se acentuam. Incertezas sobre o futuro são combustível para reações de revolta.

Por outro lado, é perceptível que existe um crescente sentimento pós 2008 que se acelerou com a Covid-19 sobre um modelo de capitalismo sustentável. Alguns o chamam de capitalismo consciente, sustentável ou de propósito. A ideia se baseia em um modelo que tem uma preocupação socioambiental e com forte atuação do setor privado, e não apenas de governos. Empresas passam a direcionar seus negócios a um intento que envolve colaboradores diretos e indiretos e influencia a liderança e a cultura da organização. Indústrias tradicionalmente poluidoras são as primeiras a sentir os impactos de demanda de cidadãos conscientes.

As gerações Y e Z cresceram ouvindo falar no derretimento das geleiras do ártico, na poluição dos oceanos e na perda da biodiversidade com a destruição da fauna e da flora. Hoje consomem produtos com possibilidades de vociferar nas redes, subir hashtags, cancelar empresas e fazer petições online contra marcas e seus rostos. Sentem-se empoderados por telas sensíveis ao toque como armas apontadas para o que não aceitam. A ativista sueca Greta Thunberg representa em parte essa geração que empurra as corporações ao novo capitalismo.

As crises econômicas mundiais presenciadas nas primeiras décadas do século 20 provaram que a economia capitalista livre, leve, solta e sem controle é um convite ao monopólio e à farra dos papéis, o que culminou na tragédia de 29. Essas desigualdades provocavam tensões e conflitos e levaram ao autoritarismo e as guerras. O que virá da farra de 2008 e da Guerra Tecnológica? O capitalismo é feito de crises. Não será a última. Mas é feito de superações também, rearranjos e inovações.

Um olhar sobre a evolução mostra que apesar de tudo, a miséria diminui e não aumenta se enxergarmos as décadas e não os anos. Olhando para um filme retrospectivo de dois séculos, a pobreza extrema, a educação, a alfabetização, a democracia, as vacinas e a mortalidade infantil melhoraram fortemente seus índices, sobretudo após 1950.

O Sistema Capitalista pode estar mais consciente ou buscar um propósito, mas em verdade, acho que caminhamos para um Capitalismo da Culpa, com forte carga psicológica e não apenas econômica. O sentimento de culpa é vinculado a responsabilidade, ao reconhecimento de algum ato comissivo ou omissivo que desencadeou mal a si ou a terceiros. No século passado, três elementos eram referências para um modelo baseado no hiperconsumo:

1º CRÉDITO;
2º PUBLICIDADE EM MASSA; e
3º PROPRIEDADE INDIVIDUAL.

Hoje três novos conceitos se apresentam como o rosto do consumo consciente:

1º REPUTAÇÃO;
2º COMUNIDADE; e
3º ACESSO COMPARTILHADO.

Reclamações nos perfis das empresas nas redes acaba sendo mais eficaz que nos canais tradicionais de atendimento ao cliente atingindo em cheio sua imagem perante a comunidade. Seja sincero ou não, o modelo de consumo baseado em reputações, likes, dislikes e cancelamentos ganha um novo patamar ao demandar de grandes estruturas organizacionais uma atuação para além dos departamentos de responsabilidade social. Isso fica mais evidente diante das questões ambientais em tempos de queimadas no Pantanal, Amazônia, Austrália ou Califórnia.

Entretanto, a Economia de Dados, acelerada pelo distanciamento social, igualmente receberá a sua fatura. Empresas de delivery por aplicativo já começam a ser questionadas sobre a remuneração e condições de trabalho dos entregadores. Na Europa, as grandes empresas globais de tecnologia que tiveram ampliadas suas receitas passaram a ser examinadas sobre a parcela de contribuição em forma de tributos que reverterão para as economias combalidas pela pandemia que as beneficiou. Isso em meio a acusações de abuso de poder econômico, violação da privacidade, monopólio, desinformação e evasão fiscal.

O filósofo Sêneca dizia que o início da salvação é o conhecimento da culpa. Mas onde começa a culpa? Em se tratando de negócios, nesse século ou no passado, a culpa nasce do crédito, da reputação ou melhor, “a falta de”. O bolso é parte indissociável da consciência econômica.

* Marcelo Bechara nasceu em Salvador. Formado em Direito pela Milton Campos em 2001, tem MBA pela FGV em Direito da Economia EN 2003 se especializou em Direito Digital. Foi Procurador-Geral da Anatel de 2010 a 2011, Conselheiro-Diretor da Anatel de 2011 a 2015, sendo Vice-Presidente da Anatel em 2015. Membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br por 9 anos entre 2006 e 2015 tendo participado da formulação do Marco Civil Da Internet. É membro do Conselho Superior da ABERT – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão para o biênio 2018-2020 e Membro do Conselho Nacional de Cinema desde 2018.