Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Em entrevista à Arko Advice, ex-secretário eximiu o governo da lentidão no avanço das pautas de Paulo Guedes e avaliou que o ministro deve continuar no cargo

Depois de protagonizar o que o ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de “debandada”, o ex-secretário de desestatização do Ministério da Economia, Salim Mattar, diz não ter ressentimentos por não ter conseguido avançar na venda de estatais. Em entrevista transmitida no Youtube pela Arko Advice, o ex-secretário defendeu o governo dizendo que a configuração do poder em Brasília que inviabiliza a realização de grandes reformas pelo governo federal.

Mattar deixou o cargo no dia 11 de agosto, em meio a dificuldades para fazer rodar sua agenda de privatizações. O empresário é conhecido por ser o fundador da Localiza, empresa de aluguel de carros. No mesmo dia, o secretário da desburocratização, Paulo Uebel, deixou o cargo, também por ver pouco avanço na pauta liberal.

Confira os pontos mais importantes defendidos pelo ex-secretário:

A culpa não é do governo

Na entrevista ao cientista político Murillo de Aragão, CEO da Arko Advice, Mattar demonstrou não guardar ressentimentos do governo. Para ele, a culpa das reformas avançarem lentamente é de grupos externos. Ele avaliou que há em Brasília, uma mentalidade de que o Estado precisa ser grande. Para ele, a culpa é de anos de governos social-democratas, que gerou uma cultura que impede o avanço rápido do liberalismo.

“Quando eu vim para o governo, eu imaginava que poderia haver uma transformação, mas o establishment não deseja transformação, ele só aceita pequenas mudanças. As grandes transformações mexem nos interesses das pessoas, no jogo de poder e traz insegurança”, avaliou. “Em Brasília você não faz o que quer, faz aquilo que o establishment permite que você faça”.

Mattar avalia que a pressão dos grupos majoritários acaba por influenciar a posição de quem pode influenciar o rumo do debate. “Tenho certeza que Rodrigo Maia gosta da pauta das privatizações, mas como presidente da Câmara ele tem que agir de acordo com o pensamento médio da casa”, exemplifica.

Para o ex-secretário, a oposição faz coro à elite política ao se opor a Bolsonaro. Ele explica: “Guedes é de uma competência fora do comum. Se conseguir aprovar os projetos dele, isso é um risco para o establishment porque [as reformas] podem reeleger o presidente. Quem não quer a reeleição ataca o governo e a economia”.

698 empresas públicas

Mattar revelou que se surpreendeu com a quantidade de estatais que existem no Brasil. Ele lembra que o número oficial é de 134 empresas públicas. Mas diz que, ao chegar no cargo, descobriu que esse número escondia outro ainda maior. “Encontrei 698 empresas, entre as 46 estatais de controle direto e suas subsidiárias, coligadas e com simples participação”, contabiliza. O número é grande porque conta todas as aplicações das estatais. “A CAIXA econômica tinha um investimento em um banco na venezuela e o Banco do Brasil tinha um investimento em um banco no Egito”, conta.

Ele definiu o tamanho da máquina estatal como “perversa”. “Governos anteriores preferiram colocar dinheiro em servidores, no tamanho do estado e em obras faraônicas. Essa alocação faz que a gente tenha uma grande desigualdade no Brasil”.

PPI é banho-maria para privatizações sem apoio

O ex-secretário criticou a existência do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Para ele, a pasta representa uma etapa a mais a ser vencida para privatizar empresas. Disse que quando não há apoio à privatização de alguma estatal, ela fica “presa” no PPI, em uma eterna realização de estudos, enquanto não houver clima político para o início do processo.

“Se os Correios fosse da iniciativa privada, em 60 dias seria vendida. Nós decidimos privatizar em junho de 2019. Já se passou mais de um ano e nada aconteceu”, exemplifica. “O PPI gerou para nós um estágio antes da privatização, que a empresa fica lá, hibernando por muito tempo. Os Correios e a Telebrás estão lá”.

Paulo Guedes fica

Na avaliação de Mattar, o ministro da Economia, Paulo Guedes não deve abandonar o governo. Segundo ele, apesar da vagarosidade no avanço das pautas econômicas, a boa relação entre Guedes e Bolsonaro deve aguentar a crise. “A relação de Guedes com o presidente é espetacular. Se respeitam muito, brincam. Não me parece que tenha algum fundamento que Guedes possa cair”, avaliou, relatando o clima das reuniões que participava. “O Ministro Guedes está firme. Vai continuar. goza da confiança e do prestígio do presidente”, pontua.

Veja a entrevista completa: