Foto: Isac Nóbrega/PR

Em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e à crescente briga nas últimas semanas entre as duas maiores economias do planeta, o Brasil, que tem na China seu primeiro parceiro comercial e nos Estados Unidos, o segundo, pode angariar benefícios. Washington e Pequim, que estão atrelados a uma guerra comercial sempre a um fio de explodir, viram uma trégua acordada em janeiro não baixar nenhuma tarifa. As duas nações transferiram sua briga para os organismos internacionais.

A Organização Mundial da Saúde presenciou os Estados Unidos, seu maior financiador, saindo por discordar da excessiva ascendência que a China exerce na cúpula da instituição. Já na Organização Mundial do Comércio, o governo americano se vale de sua influência para praticamente suspender os trabalhos: Donald Trump favorece acordos bilaterais alheios à OMC – a fim de retirar da China os benefícios competitivos de estar incluída indevidamente na lista de países em desenvolvimento.

A União Europeia, por sua vez, deixou de reconhecer, em junho, a classificação e o Japão solicitou aos bancos de incentivos que reduzam os empréstimos a juros baixos concedidos aos chineses. A China envida todos os esforços no sentido de provar que merece ser tratada com privilégios no comércio mundial. Segundo o ex-chefe de um dos setores do serviço de inteligência britânico Robert Hannigan, o Ocidente tem pela frente um dilema inédito, qual seja, o de lidar com uma potência tecnológica com valores muito diversos dos outros países.

Vale ressaltar, por exemplo, que a estratégia impositora da China para se consolidar como potência foi bastante intensa na pequena Hong Kong, a ex-colônia britânica, que foi tomada no último ano por um movimento popular dedicado a se contrapor à dominação do governo central. Pequim acatou uma lei de segurança que sobrepujou a mobilização e instalou tropas e agências de fiscalização no território. Em contrapartida, Trump impôs várias sanções, porém, a ocupação continua e o presidente chinês, Xi Jinping, tem o tempo a seu favor para que o assunto saia do foco internacional.

No entanto, essa guerra sem-fim entre a China e os Estados Unidos dá margem a uma série de oportunidades para os demais países, entre eles o Brasil. Os dois países são os principais destinos das exportações brasileiras, que continuam aumentando. Apesar da crise provocada pela Covid-19, os embarques para portos chineses, entre janeiro e junho, chegaram a U$S 14 bilhões, o que representa um incremento de 14% ante 2019. Por outro lado, o alinhamento automático do governo de Jair Bolsonaro com de Donald Trump deverá excluir do leilão da rede 5G, previsto para 2021, a mal falada Huawei, mesmo com a sua reconhecida superioridade tecnológica.

O Palácio do Planalto vem ignorando a diplomacia em favor de Trump, o que interfere na na corrida científica e tecnológica do país. Embora a participação da Huawei no leilão 5G fosse a melhor opção para o Brasil, a formação cristã ocidental norte-americana, construída com valores como democracia e livre-iniciativa, faz com que os EUA sejam o modelo de capitalismo que o Brasil almeja, sobretudo no governo Bolsonaro. Prova disso é o intercâmbio de brasileiros com o país, seja por aspectos financeiros ou educacionais, que é bem superior ao da China, com regras próprias em assuntos como segurança jurídica, privacidade de dados e interesses do Estado.

Brasil-China

De acordo com o ministro-conselheiro da Embaixada da China no Brasil, Qu Yuhui, nas relações políticas internacionais, o fortalecimento de uma parceria bilateral entre o Brasil e outros países não deve afetar a cooperação com a China. Ele espera que a cooperação entre Brasil e EUA não prejudique o relacionamento entre China e Brasil. Yuhui assegura que são dois relacionamentos totalmente compatíveis e não são excludentes e que se forem bem trabalhados, podem trazer benefícios para todos países envolvidos.

Contudo, o ministro alerta sobre algumas políticas e manobras americanas recentes que demonstram a intenção de embaraçar a relação entre a China e as demais nações. Ele avalia também que uma retaliação não seria a escolha dos chineses, mas sim construir diálogos e parcerias, de respeito mútuo e de soberania dos países. Destacou ainda o avanço da corrente de comércio entre Brasil e China mesmo em um período de pandemia, que causou redução das exportações brasileiras para outros países.

Ainda segundo Qu Yuhui, é justificável se tomar uma atitude cautelosamente otimista, pois a economia brasileira já apresentou sinais de recuperação. Por sua vez, a China já iniciou a retomar sua atividade econômica normal, com sinais muito fortes de retomada de seu consumo. E, no longo e médio prazo, há ainda mais razão para otimismo, uma vez que se leve em consideração a complementabilidade e o aumento do mercado de consumo na China.