Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

A teoria da curva de aprendizado é uma forma de medir o desempenho de uma pessoa ou de uma instituição ao longo de determinado tempo. A ideia é que, quanto mais tempo passa, mais se aprende a fazer bem o que se está fazendo. O exemplo clássico é o de um empregado novo. Pouco sabe sobre a sua atividade, mas, à medida que o tempo vai passando, a prática o torna cada vez mais eficiente.

Como transportar tal situação para a política? Em governo que faz sucessor, caso de FHC, que se reelegeu, e de Lula, que, além de se reeleger, elegeu e reelegeu Dilma Rousseff, a transição de um mandato para outro transporta boa parte da experiência adquirida. Dilma é caso único. Além de desprezar os ensinamentos de seu patrocinador, não aprendeu nada em seu primeiro mandato e naufragou fragorosamente no segundo.

Temer, mesmo sem ter sido administrador, sabia as manhas da política e errou menos. Não conseguiu se comunicar bem e, dadas as realizações de seu governo, terminou pior do que poderia. Bolsonaro virou presidente com precária experiência administrativa e postura política anti-establishment. Rompeu com o presidencialismo de coalizão, nomeou quem quis e, em seu ano e meio de mandato, colecionou erros e acertos.

“Há um bom exemplo de comunicação, sem alarde: as ações do Ministério do Desenvolvimento Regional”

Nesta altura dos acontecimentos, em que estágio está a curva de aprendizado do governo Bolsonaro? Para simplificar um quadro complexo, vamos considerar três tipos de aprendizado. O primeiro é o dos que demoram a aprender. Não conseguem sequer implantar suas políticas e se perdem em debate estéril sobre ideologia.

O segundo tipo é o daquele que aprende aos trancos e barrancos. Está nos carrinhos elétricos do parquinho de diversões e progride entre batidas e solavancos. O terceiro tipo avança com mais tranquilidade. Nesse grupo se destacam alguns ministros: Tereza Cristina (Agricultura), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Roberto Campos Neto (Banco Central). Tanto pelo preparo técnico quanto pelo conhecimento das regras onde atuam. Para funcionar melhor, o governo poderia olhar para exemplos dentro de seu próprio ministério. Caso a cultura do terceiro grupo prevaleça, o governo funcionará de maneira harmônica. Não é, porém, uma questão apenas de gerência e conteúdo. É de forma também.

Há uma área do governo, contudo, em que a curva de aprendizado é praticamente nula: a das comunicações. Paradoxalmente, o presidente Bolsonaro tem uma elevada popularidade — 50%, somando “ótimo”, “bom” e “regular” (lembre-se de que ninguém é reprovado na escola por ter desempenho “regular”). Sem saber se comunicar bem, o governo manteve a popularidade alta. Se se comunicasse de forma estratégica, melhoraria. Lá mesmo no governo há um bom exemplo de comunicação. Toda sexta-feira vejo nas redes sociais um vídeo do Ministério do Desenvolvimento Regional com o balanço semanal. Sem alarde, informa o que tem feito. Diante dos desafios que enfrentamos, o governo deve acelerar o seu aprendizado para ter sucesso na retomada da economia e no enfrentamento dos problemas sociais. Há seriedade. Mas não bastam boas intenções.

Publicado em VEJA de 22 de julho de 2020, edição nº 2696

 

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.