Foto: Denis Balibouse/ Reuters

Apontei em meu e-book Ano Zero que a ordem global, tal como a conhecemos desde o fim da II Guerra Mundial, estava em crise antes mesmo da Covid-19. A pandemia apenas agravou as tendências existentes e nos impôs novos desafios. Pelo menos três fatos associados à governança global durante a pandemia evidenciam a necessidade de um novo padrão, que seja eficaz, de relações entre as comunidades.

O primeiro é a dificuldade de a Organização Mundial da Saúde se posicionar com clareza. A OMS foi lenta e ainda é confusa em suas recomendações. Os Estados Unidos atribuem o problema a um predomínio chinês na entidade. A OMS vive uma crise de credibilidade.

O segundo fato reside na omissão da Organização das Nações Unidas durante a pandemia. A ponto de muitos questionarem a própria utilidade da organização, deixando patente a urgência de ela se reinventar. Não houve, até agora, por exemplo, nenhuma reunião do seu Conselho de Segurança para tratar do tema.

O terceiro fato é constatado na demora (e na insuficiência) de as instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, se mobilizarem para produzir um pacote de iniciativas que possam mitigar os trágicos efeitos econômicos da doença no mundo.

“O Brasil deve observar os acontecimentos e avaliar que prioridade dará ao resgate da governança global”

OMS, ONU, instituições financeiras: os principais pontos de apoio da governança global — haveria outros exemplos — dão flagrantes demonstrações de ineficácia. Diante de uma crise sanitária de escala planetária, nenhum desses órgãos foi capaz de articular uma ação conjunta em nível planetário. A crise profunda em que se encontram os organismos internacionais lembra o naufrágio da Liga das Nações, criada com as melhores intenções no pós-I Guerra Mundial. A orga­nização morreu pelo desinteresse dos EUA, pela agressiva política de Adolf Hitler e por uma estrutura decisória paralisante. Não esteve à altu­ra do imperativo de mediar as tensões dos anos 1930 e seu fracasso deu lugar à II Guerra Mundial.

O modelo criado no pós-II Guerra experimentou amplo sucesso nos últimos 75 anos. Tendo a ONU como centro, impediu novas grandes guerras, conteve a proliferação nuclear e liderou ações humanitárias. Mas perdeu a dinâmica. Alguns choques internacionais produzem um sentimento de abandono e isolamento. Em 2020, quando essa ordem dava sinais de esgarçamento, veio a pandemia e, por falta de lideranças, nossa reação ao novo coronavírus só fez acentuar essa deterioração.

O Brasil deve observar os acontecimentos e avaliar que prioridade dará ao resgate e ao aprimoramento das estruturas de governança global. Deve ponderar a relevância que lhe convém atribuir ao fortalecimento dos mecanismos de ação multilateral num mundo marcado por problemas que não respeitam fronteiras e pela disputa hegemônica entre Estados Unidos e China. Deve refletir, ainda, à luz de interesses concretos, acerca de seu relacionamento com essas potências. Como nação, devemos olhar o passado, entender o presente e, com sentido de realidade, dar nossa construção de um futuro com maior segurança. Em todos os sentidos.

Publicado em VEJA de 8 de julho de 2020, edição nº 2694

 

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.