Foto: Sergio Lima/Poder 360

O governante moderado lidera uma nação, buscando o apoio da maioria para atender ao máximo os interesses coletivos da cidadania. Precisa da paz social para governar. O governante extremista não dialoga e tenta impor seus propósitos. Vale-se do confronto para governar. Ao persistir elegendo extremistas, o Brasil se afasta cada vez mais da paz social e da convivência pacífica

Itamar Garcez *

O Brasil assiste a uma exibição em tempo real dos males do extremismo. Sem moderação, sem equilíbrio, sem diálogo, o presidente Jair Bolsonaro demonstra interesse apenas no minguante grupo de apoiadores e no de seus malcriados filhos.

Os extremistas políticos têm duas destacadas características. Acreditam que somente eles são bem-intencionados, portanto, estão sempre certos. Têm certeza que os adversários são mal-intencionados, portanto, estão sempre errados. São, o mais das vezes, intransigentes.

Quando estão na oposição são maléficos à paz social se assumem posições de confronto belicoso, como as manifestações violentas. No governo, porém, são sempre perniciosos.

Como ensina Norberto Bobbio no Dicionário de Política, há extremistas de direita e de esquerda. No verbete assinado por Silvano Belligni, o extremismo é apresentado em oposição à ética aristotélica, que busca o equilíbrio, a racionalidade e a virtude no “justo meio”.

Já a ação política do extremismo “rejeita as regras de jogo de uma comunidade política, não se identificando com as finalidades, os valores e as instituições prepostos à vida pública, e fazendo por modificá-los radicalmente”. Não é na oposição ao status quo que reside seu potencial maléfico, mas na recusa em aceitar o gradualismo dos objetivos e a repulsa à negociação, predicado intrínseco à política numa democracia.

Convicções não prescindem do diálogo

A convicção em um propósito é essencial ao bom governante. Não é possível avançar ou melhorar as condições de vida da cidadania – provendo, por exemplo, igualdade de oportunidades – sem definir os objetivos e os métodos para atingi-los.

Convicção exacerbada, porém, atrapalha. Tal qual uma seita que não admite erro da entidade ou liderança máximas de sua doutrina, um sequaz da política tem a convicção inabalável. Não se pauta pela ciência, pelo contraditório, pela racionalidade, mas por seu ideário imutável.

Moderados também têm convicções, mas admitem o contraditório. Em última instância, a razão indica que nenhuma verdade é absoluta e toda a convicção deve ser testada. Se for este o pensamento do líder político, ele estará disposto a dialogar.

O moderado admite que, às vezes, é preciso ceder em suas convicções para preservar a convivência democrática. O limite para isto depende de negociação transparente, como deveria ser toda a ação do poder público.

Para não ceder à pusilanimidade é preciso estabelecer limites. Um deles, inarredável, é o da ética e da honestidade.

Minoritários, mas atuantes

Não parece ser a sociedade brasiliana formada majoritariamente por extremistas. Mas são estes, nas últimas décadas, que têm dominado o cenário político.

Com a convicção dos que detêm a verdade, arrebanham multidões atraídas pela retórica inflamada. Ao mesmo tempo, elegem inimigos a serem eliminados. É neste jogo de polarização que o Brasil está metido faz tempo. Eu estou certo, logo você está errado.

De um lado, a chamada esquerda que, embora composta por largo espectro, carrega, em maior ou menor grau, as duas características do extremismo acima elencadas. Mais disciplinada e orgânica, ela penetra em meios importantes da organização social, como nas universidades, no meio cultural e na imprensa.

De outro lado, a chamada direita, também composta por distintos matizes ideológicos. Sem a mesma organicidade, ela encontra amparo no meio empresarial e financeiro, nas forças armadas e policiais & em partes expressivas das comunidades religiosas.

Nas franjas de um e outro lado, o extremismo vinga e prospera. Quando dominante, estende os malefícios à toda sociedade, por sua indisposição com o confronto de ideias e a convivência com os opostos.

In medio stat virtus

Afora a intransigência imanente, dificultando as soluções mediadas e os arranjos políticos, o extremismo carrega a tendência à radicalização. Quando um lado ascende, com suas certezas inabaláveis, imediatamente o outro se fecha igualmente intransigente e irracional, afastando a razão e o equilíbrio das decisões dos antagonistas. Por isto, pacificar o país elegendo um lado ou outro é tarefa bastante difícil para um extremista – caso haja nele esta disposição.

No dicionário de Bobbio, uma rápida citação em latim expressa o caminho que racionalmente o Brasil deveria trilhar. In medio stat virtus. A virtude está no meio.

Não se vislumbra nada parecido hoje. Estamos num estágio anterior, buscando preservar o liame democrático, sempre ameaçado pelos extremos impacientes. Atualmente, pelo capitão-mor e seu namoro com o autoritarismo. No passado recente, pelo flerte com ditaduras.

Não há sinal do moderado desconhecido, cuja ação serenasse as paixões políticas e conduzisse o país com equilíbrio, temperança e diálogo. Mas, afinal, somos uma nação heterogênea, que não consegue união nem mesmo diante de um inimigo comum e mortal como o coronavírus.

Supondo que nossa democracia sobreviva ao extremista que ora nos governa, não encontraremos a paz social se, daqui a dois anos, perseverarmos na escolha de um prócere dessa polarização radicalizada. De tanto berrar e olhar para um único lado, extremistas tornam-se surdos e caolhos.

* Itamar Garcez é jornalista