Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

A pandemia de Covid-19 colocou o Brasil no córner. Tanto pelos problemas que o país já trazia na bagagem quanto pelos novos, advindos da crise sanitária. Para piorar, faltam ao governo liderança e narrativa para enfrentar os desafios que se somam. Algumas vezes falta também coragem cívica para enquadrar seus defensores mais exaltados.

O governo Bolsonaro é humilhado quando um ministro ou aliados ameaçam ministros do Supremo Tribunal Federal. Ou quando Olavo de Carvalho ameaça derrubar o presidente da República, sem se desculpar nem voltar atrás.

Apesar de promover algumas iniciativas consequentes no enfrentamento da pandemia, o governo carece de organização, narrativa e comunicação de suas entregas. O foco de Bolsonaro continua sendo o embate institucional, mas o governo ganharia força, poder e prestígio se enfrentasse adequadamente a pandemia.

Além dessas deficiências e de escolhas equivocadas, o governo tem uma capacidade inesgotável de criar problemas para si mesmo. A ponto de ser, de longe, a mais competente oposição que hoje enfrenta. A partir do volume e intensidade das crises do momento, que cenários podemos vislumbrar para o governo Bolsonaro?

Vamos partir de três cenários básicos. O primeiro é o de tudo ficar na mesma. O segundo é a reinvenção do governo. O terceiro cenário, a sua substituição.

Vamos começar pelo último, o mais improvável na atual circunstância: a saída de Bolsonaro. Considerando a sua popularidade e a base de apoio entre ruralistas e evangélicos, entre outros segmentos, um impeachment parece distante — e, com o renascimento do presidencialismo de coalizão, as defesas presidenciais serão fortalecidas.

“O presidente deve continuar a alimentar a crise institucional com os olhos fechados para o radicalismo”

O segundo cenário — o ideal — seria uma ampla reinvenção do governo. Algumas vezes parece que Bolsonaro deseja reformular sua atuação, mas tais avanços são tímidos, quando não são afetados por retrocessos. Para uma reinvenção dramática, que marcasse uma virada, a situação teria de piorar muito e o governo ser seriamente ameaçado em sua governabilidade.

Considerando as atuais circunstâncias, o cenário que parece mais provável é o de tudo permanecer do jeito que está. Bolsonaro continuará a alimentar a crise institucional com frases em favor da democracia, mas com os olhos fechados para o radicalismo de seus aliados. O Judiciário prosseguirá nas investigações como forma de conter os arroubos do presidente.

O Congresso buscará no presidencialismo de coalizão a energia de que necessita para alimentar o establishment político. E, no fim das contas, dependeremos do acaso ou da piora substancial da cena social para vermos mudanças.

Alguém poderia indagar sobre a possibilidade de ocorrência de golpe. Nas atuais circunstâncias, um golpe de Estado é praticamente impossível. As Forças Armadas não estão dispostas a patrocinar aventuras autoritárias, nem a sociedade está disposta a abandonar o estado de direito.

A polarização, porém, veio para ficar e deve prosseguir contaminando as narrativas, acirrando conflitos e, pontualmente, provocando atos de violência. Não é o cenário ideal, mas é o que temos para hoje.

Publicado em VEJA de 24 de junho de 2020, edição nº 2692

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.