Alina Souza/Palácio Piratini

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou que o governo criará um programa de renda mínima batizado de Renda Brasil.

Embora ainda não haja detalhes sobre a formatação do programa, Guedes adiantou que a ideia é unificar os diversos projetos sociais hoje existentes, entre eles o Bolsa Família, para abranger um número maior de beneficiários.
Por exemplo, os trabalhadores informais, que hoje recebem o auxílio emergencial por conta da pandemia gerada pelo novo coronavírus.

Antes do anúncio de Paulo Guedes, a equipe econômica já havia sinalizado com a possibilidade de rever programas sociais considerados ineficientes, caso do abono salarial, do seguro-defeso (espécie de seguro-desemprego dedicado a um trabalhador específico: o pescador com perfil artesanal)
e do farmácia popular.

Entretanto, um programa de assistência social mais amplo implicará também a necessidade de se buscar fontes de financiamento. Mesmo com tal desafio, a extensão do auxílio emergencial, que será proposta por mais dois meses, e a criação desse programa de renda mínima têm potencial
para gerar repercussões políticas importantes para o presidente Jair Bolsonaro.

Para se ter uma ideia de seu alcance, dados do Ministério da Cidadania apontam que mais de 58 milhões de pessoas estão recebendo o auxílio emergencial. No Sudeste, 36,1% recebem a ajuda. No Nordeste, o programa atinge 35,7% da população. No Norte, o auxílio chega a 10,9%. No Sul, são 10,2%. E no Centro-Oeste, 7,1%.

Assim, a magnitude do público a ser coberto por um programa de renda mínima tende a consolidar benefícios políticos para o presidente.

Segundo pesquisa divulgada na última quinta-feira (11) pelo DataPoder360, entre a parcela da população que está sem renda fixa – trabalhadores informais – a avaliação positiva do governo é de 33%, índice superior à média nacional (28%). Nesse público, a avaliação negativa do governo é de
38%, percentual inferior à média nacional (47%).

Ainda de acordo com a pesquisa, a avaliação positiva do governo é de 34% entre quem está recebendo o auxílio emergencial. Entre os que não recebem o benefício, o percentual positivo do governo cai para 23%.

Há espaço, portanto, para Bolsonaro consolidar sua popularidade nesse público a partir da criação de um programa de renda mínima.

A transferência de renda para esses segmentos também deverá ajudar o presidente a melhorar sua avaliação no Nordeste. Conforme o DataPoder360, a desaprovação de Bolsonaro nessa região é de 59%.
Trata-se da mais elevada no país, enquanto a aprovação é de apenas 19%.

Além disso, ao rebatizar o programa Bolsa Família para “Renda Mínima”, Bolsonaro estará anulando, do ponto de vista do marketing, o grande legado deixado pelos sucessivos governos do PT para a população. Assim, o fim do Bolsa Família tem potencial para representar um grande baque para o lulismo. Afinal de contas, a parcela da população que ainda é simpática ao expresidente Lula (PT), sobretudo no Nordeste, sente no
bolso os efeitos econômicos do Bolsa Família.

Por isso deverá ocorrer muita resistência por parte dos petistas, sobretudo entre os governadores e os deputados da região, ao programa a ser lançado pelo governo, já que ele inviabilizará a vitrine política do Bolsa Família.

Além do PT, governadores e prefeitos, especialmente no Nordeste, podem se opor à mudança de nome do Bolsa Família, pois trata-se de um programa com uma marca bastante consolidada, em particular nos grotões
do país, o que traz dividendos políticos.

Apesar desses obstáculos, a partir do Renda Brasil o Ministério da Economia poderá abrir uma possibilidade para Bolsonaro conseguir fidelizar os segmentos de menor renda.

Fora a questão econômica, o que poderá ajudar o presidente a conquistar essa fatia do eleitorado é o conservadorismo moral, muito forte nesses setores. Pautas como Deus e oposição ao aborto, além da defesa de lemas como “bandido bom é bandido morto”, podem ter grande ressonância nesse público.

Embora ainda seja preciso aguardar detalhes do Renda Brasil para uma avaliação mais profunda, é fato que a instituição de um programa de renda mínima permanente poderá marcar uma transição na base social do presidente, que migraria de uma espécie de bolsonarismo de classe média para um bolsonarismo popular.