Foto: Sergio Lima/AFP

As manifestações pró e contra governo neste domingo (14) foram bastante esvaziadas. O tradicional protesto de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, realizado em Brasília, teve baixa adesão, consequência da decisão do governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha, em fechar a Esplanada dos Ministérios.

Ibaneis tomou a decisão após ser ameaçado por militantes radicais bolsonaristas, que ficaram insatisfeitos após a polícia militar desmontar o acampamento do grupo “300 do
Brasil”, de apoio ao presidente.

Também pesou na decisão do governador a tentativa desse grupo, liderado pela ativista Sara Winter, de invadir o Congresso Nacional. Além disso, na madrugada de sábado para domingo, grupos radicais simularam ataques ao
Supremo Tribunal Federal (STF) ao soltar fogos em direção à Suprema Corte.

O decreto de Ibaneis Rocha, determinando o fechamento da Esplanada, tem potencial para gerar atritos com o presidente Jair Bolsonaro, principalmente se for mantido
nos próximos finais de semana, pois traz o risco de desmobilizar a base social bolsonarista na capital federal.

Como consequência, os ataques a Ibaneis devem crescer, pois há quem interprete a decisão do governador do DF como um ato de censura. Com a proibição de atos na
Esplanada, a Avenida Paulista, em São Paulo, um importante reduto bolsonarista, pode acabar se transformando no epicentro da concentração de apoio ao presidente.

Os atos da oposição, concentrados na Avenida Paulista, também foram mais esvaziados que o registrado na semana passada. Convocados pelos grupos “Frente Brasil Popular”, “Frente Povo sem Medo”, e a “Central de Movimentos Populares (CMP)”, que compõe o movimento “Somos Democracia”, tendo como pauta o “Fora Bolsonaro”, além da “defesa da vida e da democracia”, a adesão a manifestação foi tímida. Sequer houve protestos contra o presidente em outras capitais.

Mesmo que o “Somos Democracia” tenha prometido, durante a semana passada, realizar manifestações “até Bolsonaro cair”, por enquanto, a capacidade de mobilização
desses grupos mais radicais de esquerda tem sido pequena.

A opinião pública ainda resiste em aderir a movimentos que produzam grandes protestos de massa como, por exemplo, as “Diretas Já” (1984), o “Fora Collor” (1992) e os protestos de rua que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff (2016).

Segundo pesquisa divulgada nesse domingo pelo DataPoder360, ao serem questionados sobre os protestos, 69% dos entrevistados afirmaram que não
pretendem participar de nenhum. 23% responderam que não participou de atos, mas pretendem participar. E somente 4% já participaram de algum ato nas últimas
semanas.

Outra pesquisa, da XP/Ipespe, divulgada na última sexta-feira (12), apontou que 40% não se identificam com nenhum dos protestos realizados (pró e contra o governo) até agora. 33% afirmaram se identificar com os protestos contra Bolsonaro. E 22% simpatizam com os atos em favor do presidente.

Mesmo com a baixa disposição da opinião pública em protestar, as ruas – que hoje são mais favoráveis ao bolsonarismo, devido à capacidade de mobilização dos grupos de apoio ao presidente – também representam um vetor de risco para o presidente.

De acordo com a pesquisa do DataPoder360, 49% disseram que ser contra o governo Bolsonaro é motivo para ir a algum protesto. 31% mencionaram o apoio ao presidente como motivo para protestar. E 11% citaram a igualdade racial.

Mesmo com o risco de Jair Bolsonaro ser alvo de manifestações, principalmente devido ao agravamento do quadro econômico, expressivas mobilizações contra o governo não devem ocorrer no curto prazo sem um fato novo.

Além do medo da pandemia do coronavírus e a preocupação dos mais atingidos pela crise ser o desemprego, não há, por ora, uma unidade dos partidos e grupos de oposição em favor dos protestos anti-Bolsonaro.

Tão pouco existe uma bandeira que unifique tais grupos, pois a pauta “Fora Bolsonaro”, defendida pelo movimento “Somos Democracia”, não unifica a opinião pública.

Porém, a mobilização de grupos pró e contra governo deve continuar sendo uma constante. Como quem se dispõe a sair às ruas são setores mais radicais — à
esquerda e a à direita – cresce o risco de potenciais conflitos entre esses grupos.