Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Tem chamado a atenção na mais grave crise vivida pelo Brasil republicano – consequência da combinação de pandemia com recessão econômica e tensão institucional – a ausência da oposição. Assim, diante da inércia dos partidos de esquerda, têm surgido movimentos como o “Estamos Juntos” e “Somos70%”. Ambos abraçaram a defesa da democracia com um viés anti-Bolsonaro.

O mais expressivo deles é o “Estamos Juntos”, que reúne hoje mais de 300 mil assinaturas. Mesmo que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), candidato derrotado pelo presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, tenha assinado o manifesto, a crítica pública feita pelo ex-presidente Lula (PT) ao movimento criou constrangimento dentro do PT, expondo a falta de rumo do principal partido de esquerda do país.

O argumento de Lula para criticar o “Estamos Juntos” é a suposta falta de propostas do grupo para a “classe trabalhadora”. Mesmo diante da posição de Lula, na última sexta-feira (05) a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e os líderes petistas no Congresso, o deputado federal Ênio Verri e o senador Rogério Carvalho, assinaram uma nota de apoio ao protesto de rua deste domingo (07).

Fora isso, na quinta-feira passada (04) senadores do PT, PDT, PSB, Rede e Cidadania divulgaram nota pedindo que a população não comparecesse às manifestações. O posicionamento errático das oposições reforça a leitura de que, desde o fim da bandeira “Lula Livre”, consequência da libertação do ex-presidente da prisão, não apenas os petistas ficaram sem agenda, como houve uma fragmentação das oposições ao governo Bolsonaro.

Por mais paradoxal que possa parecer, Lula está hoje com menos espaço no debate público do que na época em que estava preso, cumprindo pena por sua condenação na Operação Lava-Jato. Assim, o PT e demais grupos do campo progressista estão apartados do debate nacional. Têm sido apenas telespectadores do embate entre o presidente Jair Bolsonaro, dissidentes do bolsonarismo e demais forças de centro e de centro-direita.

Na atual conjuntura, a esquerda pode ser dividida em três blocos: PT/PCdoB; PDT/PSB/Rede; e PSOL. Existem ainda legendas mais radicais, porém de menor expressão, como o PCB, o PCO e o PSTU, entre outras.

Na prática, houve poucos avanços em relação às eleições de 2018, quando a esquerda se dividiu em quatro opções: Fernando Haddad (PT); Ciro Gomes (PDT); Guilherme Boulos (PSOL); e Marina Silva (Rede).

Ao menos por enquanto, a sonhada Frente de Esquerda, que reproduzindo o modelo chileno batizado de Concertación, ou o modelo uruguaio chamado Frente Ampla, não saiu do papel. No PT, embora haja nomes de destaque na chamada nova geração, como os governadores Rui Costa (PT-BA) e Camilo Santana (PT-CE), o partido ainda não conseguiu avançar uma agenda que supere os limites do lulismo.

Não à toa surgem opções dispostas a tirar do PT o protagonismo entre as forças de esquerda, o que já dura 31 anos. Ciro Gomes, por exemplo, ao assumir um discurso forte de oposição ao governo, deseja ser o anti-Bolsonaro. Ele conta com a simpatia do PSB, que tem firmado alianças com o PDT em algumas capitais para as eleições municipais de outubro.

O entendimento PDT/PSB, referendado pela direção nacional das duas siglas, é um laboratório do projeto Ciro 2022. O PCdoB – aliado histórico do PT – tem, por sua vez, o nome mais promissor da esquerda: o do governador do Maranhão, Flávio Dino. Há também o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que possui espaço mais limitado devido a uma postura radical quanto ao tema da moradia urbana, o que assusta a classe média.

Essa divisão se reproduz na disputa por capitais estratégicas, com repercussão nacional, tendo em vista as eleições municipais deste ano. É o caso das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em São Paulo, após Haddad decidir não se candidatar, o PT lançou o ex-deputado federal Jilmar Tatto. Além de Tatto, a esquerda tem como opções: a ex-prefeita e ex-senadora Marta Suplicy (SD); o ex-governador Márcio França (PSB), que será apoiado pelo PDT; a chapa de Guilherme Boulos (PSOL) e Luiza Erundina (PSOL); e o deputado federal Orlando Silva (PCdoB).

No Rio de Janeiro, após a desistência do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), as esquerdas têm como pré-candidatos: Alessandro Molon (PSB); Martha Rocha (PDT); David Miranda (PSOL); Chico Alencar (PSOL); Renato Cinco (PSOL); Benedita da Silva (PT); e Brizola Neto (PCdoB).