Foto: Ricardo Stuckert

As manifestações organizadas por movimentos de oposição ao governo Jair Bolsonaro neste domingo (07) tiveram baixa adesão. Os atos realizados em algumas capitais, com destaque para Brasília (DF) e São Paulo (SP), foram esvaziados, mesmo diante do espaço que setores da imprensa deram aos atos em seu noticiário. Eram foram verificadas em 11 estados e no DF.

A manifestação em SP, mesmo não sendo numerosa, foi maior que a da semana passada. Além disso, foram registrados panelaços em redutos de classe média contra Bolsonaro.

Já no Rio de Janeiro (RJ), colégio eleitoral do presidente, o ato oposicionista foi mais expressivo que no DF e em SP. Embora na eleição de 2018 Jair Bolsonaro tenha vencido Fernando Haddad (PT) por 66% a 33%, o Rio tem um voto de esquerda forte.

Também as mobilizações bolsonaristas foram fracas. Entretanto, vale registrar que o presidente Bolsonaro pediu a seus apoiadores que não fossem às ruas. Podemos dizer que quatro fatores contribuíram para o esvaziamento das manifestações da oposição:

  • A divisão da esquerda e da centro-esquerda: PT, PSOL e PCdoB não convocaram suas militâncias. PSB, PDT, Cidadania e Rede recomendaram a seus simpatizantes que não fossem aos protestos;
  • Apenas a Frente Povo sem Medo, liderada pelo líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guilherme Boulos (PSOL), e torcidas organizadas de clubes de futebol convocaram atos. Posicionaram-se contrárias às manifestações de rua entidades como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e os movimentos “Estamos Juntos” e “Basta!”, além da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Comissão Arns de Defesa de Direitos Humanos;
  • Os confrontos da semana passada na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), podem ter afastado setores mais moderados da sociedade civil; e
  • A recomendação da comunidade médico-científica de evitar aglomerações diante do aumento de casos e mortes por coronavírus.

    Também não há hoje no país um evento catalisador que provoque grande comoção nacional, fazendo com que a sociedade se disponha a protestar em meio à pandemia, o que aconteceu com o brutal assassinato de George Floyd nos EUA.

A amplitude das reivindicações – oposição ao governo Bolsonaro, antirracismo, antifascismo e defesa da democracia – e a falta de uma liderança que una esses grupos também contribuem para a baixa adesão.

Embora tenham surgido muitos manifestos críticos em relação a Bolsonaro nas últimas semanas, assim como movimentos nas mídias digitais através da utilização do símbolo do Antifa (Antifascista), vinculado às forças de esquerda, não há uma unidade na agenda desses grupos de oposição.

Outro ponto importante é que a parcela da população que está desempregada – e que poderia significar um foco de insatisfação – está recebendo auxílio emergencial, o que reduz a insatisfação com o governo. Sua prorrogação, conforme esperada, pode a ajudar ao governo a conter manifestações de rua em oposição ao presidente.

Mesmo que a insatisfação com Bolsonaro tenha crescido, esse grupo é composto por pessoas mais ligadas ao pensamento de esquerda/centro-esquerda, acadêmicos e intelectuais etc., que mantiveram seu emprego por conseguir trabalhar no sistema home office.

Apesar de tais fatores jogarem contra os protestos neste momento, tanto Bolsonaro quanto governadores e prefeitos precisam estar atentos às oscilações na opinião pública.

Afinal de contas, na era digital, protestos podem surgir de uma hora para outra, conforme se viu em junho de 2013, com as manifestações nas ruas.

Caso a curva de contaminados e mortos pela covid-19 continue em ascensão, retardando a reabertura da economia, o clima de insatisfação social poderá crescer, bem como a disposição de a sociedade ir às ruas.

No médio prazo, portanto, o risco é que o ambiente social piore devido ao agravamento da situação econômica. Esse fato pode trazer mais desgastes na popularidade de Bolsonaro, aumentando a disposição de a opinião pública protestar contra o presidente.