Foto: Sergio Lima/AFP

O governo de Jair Bolsonaro optou por não construir uma base de apoio formal no Congresso. Inicialmente, recusou o “presidencialismo de coalizão”, que funciona ancorado no apoio dos partidos políticos, e focou na adesão das bancadas setoriais, as chamadas “frentes parlamentares”. Mas esse modelo não tem dado bons resultados, como se viu pelas derrotas e pelos recuos a que o governo foi submetido em votações. Assim, até hoje não houve um bloco governista definido.

Os aliados fiéis, parlamentares identificados com o discurso do presidente, sempre estiveram dispersos em partidos de direita e de centro. Dada a pulverização, fica impossível mensurar o tamanho dessa base informal. O presidente, porém, nunca demonstrou se importar com a ausência de uma base consistente e numerosa, preocupando-se em manter mobilizada a sua “base social bolsonarista” (grupos populares que o apoiam).

No cenário atual, quando a ameaça de um processo de impedimento passou a ser uma possibilidade real no horizonte, o governo começou a buscar novos apoios. As conversas para atrair o Centrão – bloco composto por PP, PL, PSD, Republicanos, Solidariedade e PTB que soma pouco mais de 170 deputados – visam barrar iniciativas nesse sentido e evitar o isolamento político.

Ocorre que, apesar dessas movimentações, Bolsonaro pode não receber o apoio esperado em sua totalidade. A adesão do Centrão ao Palácio do Planalto num momento de grande desgaste do governo – em função da condução da crise provocada pelo novo coronavírus e do destaque negativo dado pelo noticiário à negociação de cargos – vem causando fissuras na unidade do grupo.

Nos bastidores, comenta-se que o bloco está rachado. Além da polarização entre os que desejam cair nos braços do governo e dos que pretendem se manter independentes, a divisão envolve interesses na sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na presidência da Câmara no próximo ano (as eleições serão em fevereiro).

Embora Bolsonaro tenha retomado o diálogo com Maia, aliados do presidente duvidam que o Planalto consiga manter a trégua. A visão é de que a militância radical do bolsonarismo não aceitará essa reaproximação e prosseguirá com a campanha que visa minar a liderança de Maia para que ele não emplaque seu sucessor.

Assim, o núcleo de apoio governista deve continuar fragmentado. Estima-se que o número de aliados esteja entre 180 e 200 deputados, espalhados entre Centrão, parcela majoritária do PSL (dissidentes que ingressarão na Aliança pelo Brasil) e apoios individuais em partidos que não se enquadram como oposição. Esse patamar deve oscilar na mesma direção da popularidade do presidente e depender do seu comportamento em relação ao Congresso.

Essa nova base é suficiente para impedir o afastamento de Bolsonaro tanto por processo de impeachment quanto por denúncia de crime comum, que necessitam de 172 votos. Mas o número não oferece segurança para garantir a condução de uma agenda legislativa.