Foto: Chery do Brasil/Fotos Públicas
É preciso atitudes mais assertivas para evitar o pior

Ainda lutamos contra as consequências imediatas da pandemia provocada pelo novo coronavírus, mas isso não impede que já nos perguntemos sobre o que fazer ao vencer a crise. Sim, porque não basta sair dela. É preciso saber como nos reinventaremos depois, já que seus efeitos econômicos de longo prazo serão duradouros. A reinvenção da economia deveria ter como baliza o elevado número de desempregados que certamente teremos ao final da crise, o tombo no PIB e o rombo gerado por um novo refinanciamento da dívida tributária, que será, fatalmente, imposto pelo Congresso Nacional.

A qualidade da saída da crise depende tanto do seu enfrentamento diário quanto da antecipação de suas consequências. No setor privado, a reinvenção já está em curso e, como sempre, mais avançada do que no setor público. Não à toa vemos empresas com milhares de funcionários operando em regime de home office. E o uso intensivo de entregas em domicílio paralelamente à dinamização das videoconferências. Mas falta sangue, vale dizer, crédito, para irrigar o corpo econômico.

No setor público, a resposta ainda é inconsistente. Pode até estar sendo ágil para distribuir dinheiro aos mais vulneráveis, mas a questão é mais profunda. O crédito ainda não chega às empresas e os setores que podem quebrar estão em negociações intermináveis com o BNDES. Os bancos privados, como sempre, jogam duro com a concessão de crédito. Setores do governo apostam que o fim do isolamento social trará de volta a retomada. É um enorme engano. A economia levará alguns trimestres andando de lado antes de começar a se recuperar de forma vigorosa. E dificilmente será uma recuperação em V, visto que o consumo será diferente tanto na forma quanto na intensidade.

“Setores do governo apostam que o fim do isolamento social trará a retomada. É um enorme engano”

Sem injeções de adrenalina no coração da economia — que é o setor privado — poderemos ver um festival macabro de quebradeiras e demissões. As atitudes precisam ser mais assertivas porque: a) historicamente, a retomada em crises econômicas é dolorosa; b) nossos problemas pré-pandemia atrapalharão a recuperação; e c) nossas respostas econômicas ainda são parciais e inadequadas.

O ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, sugeriu a formação de um comitê de crise do governo com o setor privado, o que já deveria ter sido adotado há muito tempo. O governo federal sozinho, sem o setor privado e sem os estados e os municípios, não resolverá a situação. A crise também não será solucionada sem expansão do crédito e sem investimentos em urbanização, habitação e infraestrutura.

Em meio à crise, o setor exportador vem conseguindo dar respostas porque já estava mais bem estruturado. Os demais setores vitais de nossa economia ainda andavam de lado por causa da vagarosa recuperação. Assim, a reinvenção da economia passa por atacar questões remanescentes, tais como simplificar o sistema tributário e desburocratizar o Estado, além de enfrentar os desafios postos pela crise.

Infelizmente, o conjunto da obra até agora demonstra que teremos de piorar para voltar a melhorar. E, muito provavelmente, com receituário mais forte. Como paciente, o Brasil ainda não entrou na UTI. Mas é quase certo que dela não se livrará.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.