Foto: Ed Alves/CB/D.A Press

As recentes agressões contra jornalistas por parte de bolsonaristas em manifestações de rua e a ordem de “cala a boca” dada pelo presidente Jair Bolsonaro ao ser questionado por repórteres da Folha de S.Paulo sobre sua suposta tentativa de intervenção na Polícia Federal (PF) selaram o “divórcio” entre os maiores veículos de comunicação do país e o governo. Desde então, a intensidade da cobertura crítica cresceu.

Esses dois episódios acabaram unindo praticamente toda a chamada grande imprensa contra Bolsonaro. Após o “cala a boca” do presidente, o Estadão divulgou um forte editorial em que dizia que Bolsonaro “não aprendeu nada” durante sua passagem pelo Exército. Além de Folha e Estadão, os veículos da Rede Globo têm adotado uma linha editorial crítica em relação ao governo. Hoje, pode-se dizer que só a CNN e a Band News preservam certa “neutralidade jornalística”. A Jovem Pan e a Record são quase que as únicas emissoras abertamente alinhadas com o governo.

A postura da grande imprensa contribui para manter a opinião pública dividida em relação ao governo. Porém, esse quase “jornalismo militante” dá ao presidente munição para se posicionar como vítima e reforçar sua imagem de anti-establishment. O foco da cobertura jornalística tem sido alimentar, a partir do depoimento prestado pelo ex-ministro Sergio Moro, a narrativa de que Bolsonaro teria tentado interferir na PF.

Como o depoimento de Moro acrescentou pouca coisa às denúncias já conhecidas, cresceu o espaço dado à pandemia, sobretudo em função do aumento do número de mortes e de contaminados pela Covid-19. A aproximação com o Centrão também é alvo da mídia, que sugere que Bolsonaro estaria cometendo “estelionato eleitoral” ao fazer o que criticava na campanha: acordos partidários nos moldes da “velha política”. Mas essa linha de cobertura adotada pelos principais veículos de comunicação não deve trazer, por enquanto, grandes prejuízos para Bolsonaro.

Embora a exploração do medo do agravamento da pandemia leve setores da classe média a adotar uma postura mais crítica em relação ao governo, esse público já vinha num processo de afastamento do presidente. Do ponto de vista da base social bolsonarista, ter os grandes veículos contra o governo até ajuda a mobilização. Como a força de Bolsonaro está nas redes sociais, as críticas à imprensa – sobretudo à Rede Globo – são utilizadas como combustível para manter seus seguidores ativos nas redes.

Assim, a menos que fatos novos apareçam, ter parcela expressiva da imprensa criticando o governo provoca, neste momento, mais barulho que desgastes.