Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Há uma incongruência entre a expectativa da sociedade em relação a políticos e ao produto que os políticos entregam à sociedade. A expectativa se baseia em três eixos mais ou menos simples: o que é bom pra mim (individual), o que é bom para a minha comunidade e o que é bom para o meu país (coletivos).

Como a expectativa é, geralmente, criada e idealizada por cada um, a percepção do poder depositado em cada político também é individualizada. Essa forma de pensar enfraquece a noção das instituições como entes coletivos, sociais. A empatia do eleitor é individualizada em alguém, seu comportamento e a sensação que esse transmite. Os conceitos do grupo político ou partido ao qual ele pertence estão em segundo plano. Um político se molda aos anseios de curto prazo do eleitor ao invés do eleitor identificar grupos que representam seus anseios de curto e longo prazos.

Já a percepção de um político sobre sua capacidade de entrega se baseia na busca de convergência entre o que é bom para ele, o que é bom para o partido e o que é bom para a coalizão de poderes da qual ele faz parte. Se uma ideia em que ele aposta convergir para uma expectativa da sociedade, ele pode “empacotar” sua ideia — e suas decorrências — de forma que caia bem para todos.

Porém, se aquela ideia divergir da expectativa do grupo social que ele representa, mas ele deseja trabalhar por ela, seu pensamento pode então ser apresentado de três formas: como uma tática em busca de algo maior; como um mal necessário, ou ainda como uma troca, que pode ser explicada como uma ação para continuar procurando por algo que realmente atenda aos anseios sociais.

Estruturas de pensamentos políticos dentro de partidos e organizações políticas duram pouco, pois a face pública da política é o indivíduo, e, dada a natureza humana, suscetível a mudanças de pensamentos, compromissos e narrativas de acordo com a conjuntura, humor ou episódios pessoais.

Observamos que os projetos que avançam em termos de políticas públicas surgem de uma convergência entre o que é bom para a sociedade e, ao mesmo tempo, o que é bom para determinados grupos políticos.

No ambiente político há uma grande quantidade de temas sendo tratados ao mesmo tempo. A troca de apoios entre grupos ocorre da necessidade de abrir mão de certas convicções ou interesses em busca de interesses mais valiosos, mesmo que isso não se encaixe com o anseio de curto prazo da sociedade.

A prioridade concedida aos anseios de curto prazo da sociedade ocorre perto dos ciclos eleitorais, pois o próprio processo de elaboração e entrega desses conceitos são, normalmente, relacionados à economia e, desde que não necessitem de mudanças estruturais, podem ser elaborados de forma mais rápida e sem necessidade de uma continuidade.

Acima de tudo isso, temos uma grande diferença entre as expectativas da sociedade e nas entregas de grupos políticos. Um projeto “simples imediato” ganha uma aprovação social mais enfática do que um “complexo de longo prazo”, mesmo que o último seja bem mais vantajoso para a coletividade.

A busca do interesse coletivo surge em momentos emergenciais onde há pouca escolha. Geralmente ocorre em temas estruturais.

A entrega de interesses paliativos para a sociedade é uma alternativa que é usada para compensar a passividade em relação a decisões importantes que alteram a dinâmica de poder.