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Em carta dirigida ao ministro da Economia, Paulo Guedes, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, requereu a suspensão das negociações do acordo comercial entre Mercosul e Coreia do Sul. Isso porque o rápido avanço do diálogo entre os dois países, sem consulta ao setor privado, pode ocasionar um aumento no saldo negativo da balança comercial de aproximadamente US$ 7 bilhões para o Brasil.

De acordo Robson Andrade, os setores industriais, que devem ter um papel relevante na retomada da economia e na geração de empregos nos níveis nacional e regional, sofrerão impactos graves, em especial no cenário pós-pandemia da covid-19”. Ele avalia também que, no fim do ano passado, foram estabelecidos dois importantes diálogos entre os Poderes Executivo e Legislativo. Um deles sobre integração internacional e o segundo relacionado à produtividade e à competitividade, com o Ministério da Economia, representantes do Poder Legislativo, CNI e associações industriais.

O presidente da CNI aponta ainda que os dois diálogos foram fundamentais para estabelecer o objetivo de ampliar a integração internacional do Brasil, de forma gradual e com base em uma agenda que tivesse um olhar também para a competitividade da produção nacional. Robson destaca que os acordos firmados pela Coreia do Sul com países em nível de desenvolvimento semelhante ao do Brasil – a exemplo da China, Índia e Turquia – são diferentes daquele que vem sendo negociado pelo Brasil. Com essas nações há exclusão de um número mais amplo de produtos, o que implica em quase 20% das linhas tarifárias, períodos de carência, margens de preferência para produtos industriais, bem como salvaguardas específicas para o setor industrial.

Embora a negociação esteja avançada em torno de 90% de cobertura do comércio bilateral, o setor privado não foi informado sobre as concessões feitas pelos governos do Mercosul. Some-se a isso o fato de que não parece haver dispositivos satisfatórios para tratar de produtos sensíveis, algo rotineiro nos acordos comerciais.

O documento da CNI encaminhado ao Ministério da Economia explicita também que o momento posterior à pandemia do novo coronavírus exigirá do governo atenção especial às políticas de retomada da atividade produtiva e da geração de empregos no país. E para tanto, de acordo com a CNI, serão necessários acordos comerciais mais equilibrados com parceiros que tenham potencial de gerar mais impactos positivos na produção do país.

Expectativa coreana
Em setembro do ano passado, o embaixador da Coreia do Sul no Brasil, Chan-Woo Kim chegou a declarar que acreditava que as negociações de um acordo de comércio com o Mercosul fossem finalizadas no meio deste ano. As conversas estavam indo muito bem, segundo ele, que também estava otimista com o encorajamento na cooperação nos campos da indústria e comércio que o acordo podia propiciar.

Na mesma ocasião, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, afirmou que a Coreia do Sul é fonte de inspiração permanente para o Brasil sobretudo pelo brilhante desempenho coreano em dois quesitos: inovação tecnológica e educação. Tanto Araújo quanto Kim participaram da celebração da passagem dos 60 anos de relações diplomáticas entre os dois países.

Indústria argentina
O posicionamento da CNI encontra refúgio no da Argentina, segunda maior economia do Mercosul. Em declaração conjunta firmada no dia 23 de abril, a indústria brasileira e a União Industrial Argentina (UIA) manifestam preocupação com a falta de transparência nas negociações entre Mercosul e Coreia do Sul, bem como com a falta de capacidade das indústrias do bloco em enfrentar práticas desleais de comércio. A Organização Mundial do Comércio (OMC) assegura que a Coreia do Sul é o segundo principal alvo de medidas de defesa comercial, atrás apenas da China.