Foto: Marcos Corrêa/PR
A Covid-19 engoliu 2020 e acelerou a disputa pela Presidência

Todos os eventos capitais, como a pandemia que enfrentamos, terminam gerando algum tipo de consequência que afeta a dinâmica política. A Covid-19 já causa efeitos políticos importantes. Por exemplo, o acirramento das disputas federalistas entre o governo central e os estados. Mas não é só isso. Provoca também a radical mudança na política econômica, o que desgasta a relação do Legislativo com a equipe econômica. E, no campo prático, as votações on-­line realizadas por parlamentares com o uso de aplicativos.

Mas que outras repercussões políticas devem ocorrer? Nas eleições municipais deste ano vetores relevantes de influência serão o combate à pandemia na esfera municipal e, também, a sensação térmica quanto ao meio ambiente econômico. Ou seja, os eleitores estarão com um olho no município e o outro na conjuntura.

Para as eleições de 2022, a questão se mostra mais complexa ainda, pois não existirão temas municipais mediando a agenda nacional. Provavelmente teremos uma eleição cujo vetor principal será a qualidade da saída da crise econômica gerada pela pandemia.

“O ano está economicamente perdido, e o governo terá de acelerar suas ações para ser competitivo”

Sabendo disso, alguns potenciais competidores se movimentam. Os embates políticos em torno do combate à pandemia já revelam motivações eleitorais. Até mesmo a renúncia de Sergio Moro ao Ministério da Justiça mostra um movimento eleitoral. No limite, a pandemia engoliu 2020 e acelerou a corrida presidencial. Como o eixo central da política é a Presidência da República, as eleições presidenciais de 2022 podem estar sendo decididas com base nas medidas tomadas agora por Jair Bolsonaro. Tal reflexão nos leva a algumas conclusões: o ano está economicamente perdido, e, por causa disso, o governo terá de acelerar suas ações para se manter competitivo em uma eventual tentativa de reeleição. Tanto no campo político, com a ampliação de sua base de sustentação, quanto no campo econômico, gerando crescimento e evitando uma recessão.

Ainda no meio da pandemia, o governo Bolsonaro ganhou popularidade entre setores de baixa renda em decorrência de suas iniciativas, compensando, de início, o desgaste com a renúncia de Sergio Moro. Mas a corrida está apenas começando. É um cenário complexo que indica duas relevantes mudanças de rumo: a construção de uma base de sustentação com figuras e partidos que integram o que o presidente chama de “velha política” e a adoção de iniciativas anticíclicas que devem ser postas em prática para evitar a estagnação da economia.

Com uma base política consistente, Bolsonaro evitaria as armadilhas dos pedidos de impeachment e minimizaria as pautas-bomba de cunho fiscal. Com a economia voltando a funcionar, poderia manter-se popular. São desafios que demandam capacidade de planejamento e de implementação muito sofisticada, além de uma melhora substancial na comunicação do governo.

A superação ou não desses obstáculos pode definir o cenário eleitoral para 2022. Apesar das dúvidas e do tempo que falta para as eleições, a disputa já está em curso e todos que pretendem concorrer sabem disso.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.