Foto: Agência Brasil
A saída de Sérgio Moro do comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública e a bombástica entrevista coletiva em que acusou o presidente Jair Bolsonaro de ter demitido Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral da Polícia Federal para poder intervir politicamente na instituição, seguida da réplica do presidente afirmando que Moro aceitaria a troca na PF desde que ele fosse nomeado para o STF, dá mais peso às conversas de Bolsonaro com os partidos do Centrão. A articulação de aproximação desse bloco partidário com o Palácio do Planalto vem sendo liderada pelos generais Luiz Eduardo Ramos (ministro da Secretaria de Governo) e Walter Braga Netto (Casa Civil).

O Centrão é um agrupamento de partidos de centro-direita norteado pelo pragmatismo político e por notória atuação na Câmara. No Senado, o grupo também possui peso, mas sem o mesmo protagonismo. É composto por Progressistas (antigo PP), PL, PSD, PTB, Republicanos e Solidariedade. Reúne 173 deputados e 22 senadores. Também é marcado pela diversidade de pensamento e de interesses entre seus membros, o que torna inviável uma fidelidade total às lideranças.

Aqui fica evidente a força do Centrão. Para que a Câmara aprove um pedido de impeachment são necessários 342 votos. Com 172, Bolsonaro evita a abertura do processo. Na Câmara, o Centrão tem 173. No Senado, para a aceitação da denúncia, que resulta no afastamento do presidente por 180 dias, é necessária apenas a maioria simples (metade mais um dos presentes). O Centrão pode não ter força para barrar o processo, pois teria apenas 22 votos.
Senado
Na semana passada, antes das declarações de Moro, Bolsonaro já caminhava em direção ao establishment político. Ele se reuniu com líderes do Centrão a fim de buscar apoio e garantir melhor condição de governabilidade, fôlego político e blindagem contra eventuais CPIs e investidas pró-impeachment. As conversas com os principais partidos do bloco envolvem negociações de cargos do segundo escalão do governo em estatais importantes. Esse movimento representa uma grande mudança na relação do Planalto com o Congresso.

O relacionamento com as bancadas setoriais, as chamadas “frentes parlamentares”, que, na prática, produziram poucos resultados positivos para a governabilidade, começa a ser substituído pelo diálogo com presidentes nacionais dos principais partidos do Centrão e com seus líderes partidários. Trata-se de um retorno ao modelo tradicional do presidencialismo de coalizão, criticado por Bolsonaro durante sua campanha.

Os líderes desse grupo já começam a acenar para o governo. Com o aumento da temperatura política em função da saída de Moro, alguns já se manifestaram no sentido de desestimular ideias sobre o afastamento de Bolsonaro da Presidência, alegando que o momento de pandemia não comporta tanta instabilidade política.

Sem dúvida, a adesão do Centrão ao governo fortalece a retaguarda de Bolsonaro no campo político, mesmo ao custo do desgaste de sua imagem diante de parcela do seu eleitorado. Esse apoio, porém, oferece apenas uma segurança relativa. Como já mencionado, o grupo se move ao sabor dos ventos. Deu apoio a governos anteriores e pulou do barco em momentos cruciais.

O contingente de parlamentares do Centrão, juntamente com aliados governistas de outros partidos, hoje garante a Bolsonaro os votos necessários para barrar um impeachment. São necessários 171 votos na Câmara para aprovar a abertura do processo e outros 27 para evitar a cassação pelo Senado. Entretanto, é preciso enfatizar que não se trata de grupo coeso, mas de bloco em que as divergências são muito comuns. Caso a situação se torne mais complexa e adversa para o governo, o instinto de sobrevivência política prevalecerá e a tendência natural será o desembarque, como em ocasiões passadas.