Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A tolerância do brasileiro será ainda menor

Um belo dia, por qualquer razão, a epidemia do novo coronavírus vai acabar. Seja porque teremos encontrado uma vacina, seja porque o tratamento terá se tornado banal, podendo ser adquirido em toda farmácia de esquina. As pessoas retornarão às ruas e lotarão os transportes públicos. Irão ao cinema e aos jogos de futebol. As praias ficarão cheias nos fins de semana. Tomara que sim.

Mas será que tudo voltará mesmo ao normal? E será que o que era normal antes será considerado normal depois? O fim de uma crise que não sabemos como se encerrará nos leva à certeza de que, no fim das contas, nada vai ser como antes.

Uma marca permanecerá nas famílias que perderam os seus. E também nos profissionais de saúde, que se sacrificaram para cuidar dos doentes, assim como tantos outros que trabalharam correndo riscos. Já temos milhões de desempregados e de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Esta pandemia vai piorar a situação. Como enfrentar o que vem por aí?

Não se trata, obviamente, de uma pergunta fácil. Sabemos que, por enquanto, a era da austeridade terminou. Viveremos tempos de “banco imobiliário”, quando o governo distribuirá dinheiro de mãos abertas. Justo por isso precisaremos ter muito cuidado com as escolhas a ser feitas.

“Se gastar será inevitável para sair da crise, que o Brasil gaste bem com saúde, segurança, educação e infraestrutura. E não com altos salários e mordomias”

Investimentos em infraestrutura deverão ser priorizados, urgente e obrigatoriamente, para evitar a explosão do desemprego. O bom é que necessitamos bastante de ferrovias, hidrelétricas, estradas, hospitais, escolas, portos e habitação. E dispomos de capacidade técnica para construir tudo isso.

Precisamos sanear e urbanizar as favelas e as comunidades carentes, só assim empregaremos milhões de brasileiros. Teremos de levar o Estado aonde ele não chega de maneira efetiva. Teremos de reduzir a desigualdade social e o Estado deverá funcionar de forma mais eficiente e menos onerosa.

Os brasileiros descobriram como precisam do Sistema Único de Saúde. Vale lembrar o que disse Boris Johnson, primeiro-ministro inglês, quando deixou o hospital já curado da Covid-19: o sistema público de saúde do Reino Unido é o coração pulsante da nação. Por aqui, o Brasil tem de cuidar do nosso coração pulsante.

Já que gastar será inevitável para sairmos da crise, que o Brasil gaste bem em saúde e segurança pública, educação e infraestrutura. E não em altos salários e mordomias. A política deve entender que a tolerância do brasileiro será ainda menor diante de escolhas erradas. O destino do país vai ser o que merecemos. E o que merecemos será decidido por nossas escolhas.

Publicado na VEJA em 17 de abril de 2020

Artigo anteriorBrasil e a dinâmica entre EUA e China – Vídeo
Próximo artigoReino Unido prorroga quarentena por mais três semanas
Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.