Foto: Marcos Corrêa/PR

O enfrentamento da crise exige outro padrão de atuação governamental

Com mais de dois meses na agenda nacional, a Covid-19 aumentou o nível do embate político no Brasil, o que é absolutamente inaceitável para a cidadania. O que está por vir deverá exigir um novo padrão de atuação do governo e das instituições. No entanto, o despertar para a nova realidade tem sido mais demorado do que as circunstâncias demandam. Em especial por causa do clima de conflito institucional que predominou até agora.

A reinvenção do governo passa por muitos aspectos. Na economia, a agenda contracionista de matriz liberal foi destruída pelos acontecimentos. Teremos de ser mais keynesianos, para evitar que a economia brasileira entre em colapso. Nesse aspecto, o governo avança, mas os recursos ainda não chegam até a ponta porque a burocracia prossegue imperando.

O Congresso progride na agenda de enfrentamento da crise, mas deixa de lado temas relevantes da agenda de reformas que ainda são mais importantes para a retomada do crescimento econômico e para a redução do desemprego.

Considerando-se o cenário, o que pode acontecer com o governo Bolsonaro? Como esperado, as medidas adotadas para proteger a economia brasileira têm tido alcance notadamente emergencial. Não há, ainda, o desenho de nenhuma espécie de Plano Marshall para reconstruir o estrago após a pandemia.

A mudança do comportamento político do governo é mais do que premente, podendo mesmo se transformar em questão de sobrevivência política. Aparentemente, o presidente Bolsonaro começou a entender a nova dinâmica.

“O presidente tem a faca e o queijo na mão, até mesmo para sair maior do que quando começou a pandemia”

Em tempos de incerteza, a união é fundamental. E, no regime presidencialista, o movimento deve ser liderado pelo presidente da República. Esta seria sua principal missão hoje: unir para liderar o país no enfrentamento de um inimigo comum e maior.

Curiosamente, em meio a conflitos e desencontros, o presidente tem a faca e o queijo na mão, até mesmo para sair maior do que quando começou a pandemia. Desde que tenha a exata dimensão de sua responsabilidade em tempos desafiadores.

O desafio imposto pelo novo coronavírus determina que se abandone a estratégia de confronto com a qual Bolsonaro ganhou as eleições em 2018. Como diria o piloto de Fórmula 1 argentino Juan Manuel Fangio, “carreras son carreras”.

Governar é diferente de ganhar eleições. É muito mais complexo. Governar exige lançar mão de ações agregadoras. Governar em tempos de guerra exige mais ainda. Como disse FHC, “liderar um país não é dar ordens ao país, é fazer com que as pessoas sigam junto com você”.

Publicado na VEJA de 10 de abril de 2020

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.