Foto: Marcos Corrêa/PR

A crise do coronavírus no Brasil vem desencadeando, em paralelo, uma crise política que exacerba as diferenças entre o governo federal e os governos estaduais. Ao longo do mês de março, o presidente Jair Bolsonaro oscilou em suas posições quando pediu que as diretrizes estritas e específicas do Ministério da Saúde fossem levadas a sério, principalmente as de distanciamento social e de quarentena em algumas regiões, para depois argumentar que a economia deve ser preservada, já que a gravidade do vírus não é alta entre populações de baixo risco e da faixa etária dos mais jovens. Essa oscilação foi de encontro com decisões de quarentena já assumidas por governos estaduais , ordenando o fechamento de comércios e serviços, como aconteceu no estado mais populoso e rico do Brasil, São Paulo.

As medidas tomadas pelo governador de São Paulo, João Dória, vêm sendo criticadas pelo presidente Bolsonaro, a ponto de se instalar um debate sobre quarentena vertical no âmago do governo federal. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, se apressa tentando achar a forma mais eficiente para essa quarentena vertical, apesar de os resultados em outros países não terem mostrado a eficiência necessária na contenção da Covid-19.

Mesmo com a decisão por uma quarentena vertical, onde certos tipos de comércios e serviços voltariam à atividade econômica, caberia também aos governadores compactuarem com essa medida legal para que o embate não seja judicializado entre os governos federal e estaduais. O argumento do lado dos governadores é que o alto índice de contágio do vírus, aliado às já notórias dificuldades no serviço público de saúde, poderia desencadear uma explosão de casos que eles não teriam condições de tratar.

A Itália, há exatos 30 dias, tomou uma decisão similar. Naquela ocasião, o governo italiano decidiu abrir parcialmente os comércios e estimular a população a sair e a viver normalmente. O slogan da cidade de Milão, “Milano non si ferma” (ou Milão não fecha) é bastante similar ao adotado pelo governo federal no início de uma campanha visando terminar a quarentena e estimular a atividade econômica. Essa decisão é bastante sensível, pois pode dar certo como pode dar muito errado. No exemplo italiano, o resultado foi catastrófico, com milhares de mortes após essa reabertura, fazendo com que as autoridades italianas voltassem atrás e decretassem novamente a quarentena.

Obviamente, existem os argumentos de faixa etária e de clima, mas, na prática, ainda estamos descobrindo a voracidade com a qual o vírus se dissemina no país. No sul do Brasil, por exemplo, o inverno se aproxima e temos uma população idosa em números similares aos da Itália (19% no Brasil versus 23% na Itália). Caso a estratégia do governo não funcione, a possibilidade de uma disparada nas contaminações será alta e, consequentemente, das mortes resultantes.

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.