Foto: GOVESP

Apesar do coronavírus ter trazido um grave problema de saúde pública para o governador João Doria (PSDB) gerenciar – São Paulo é o estado mais atingido do país com 1406 infectados e 84 mortes – e gerar problemas econômicos, ele conseguiu ganhar visibilidade política nacional com a crise.

Como consequência do novo cenário político, Doria antecipou sua posição de antagonista do presidente Jair Bolsonaro de olho na sucessão de 2022. Esse contraponto buscado por Doria ficou ainda mais evidente no embate que ambos travaram durante a videoconferência entre o presidente e governadores da região Sudeste na semana passada.

Em sua manifestação, João Doria fez um discurso político. Criticou o pronunciamento de Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV, quando o presidente criticou as medidas de isolamento social, defendeu o retorno às aulas, e a reabertura do comércio.

Dentro de sua estratégia de se posicionar ao centro, Doria pregou “o respeito ao diálogo e ao entendimento”. E não deixou de fustigar Bolsonaro afirmando que “o senhor que é o presidente da República tem que dar o exemplo, e tem que ser o mandatário a dirigir, a comandar e liderar o país e não para dividir”.

Jair Bolsonaro não deixou barato e bateu forte no governador: “Subiu à sua cabeça a possibilidade de ser presidente do Brasil. Não tem responsabilidade. Não tem altura para criticar o governo federal. Se você não atrapalhar, o Brasil vai decolar e conseguir sair da crise. Saia do palanque”.

Depois desse episódio, após receber ameaça de morte, João Doria subiu ainda mais o tom contra Bolsonaro na última sexta-feira (27). Em sua coletiva, Doria afirmou não ter medo “de 01, 02, 03 e 04”, numa referência aos filhos de Bolsonaro.

O governador tentou ainda “desconstruir” a campanha “O Brasil não pode parar” liderada pela Secretaria de Comunicação (Secom) do Palácio do Planalto.

Doria afirmou que “o Brasil não pode parar para lamentar a irresponsabilidade de alguns que preferem desprezar vidas. Mais de 50 países estão em quarentena. É a pior crise de saúde no mundo. Quase metade da população do planeta está em casa. O mundo inteiro está errado? E o certo é o presidente Jair Bolsonaro?”.

O governador explorou também contradição do Ministério da Saúde pregar o isolamento social, enquanto Bolsonaro faz o oposto. E reafirmou a manutenção da quarentena contra o coronavírus no estado.

“Será que vamos precisar enterrar 4.400 pessoas como fez a Itália para ter a certeza de que o convite para irem as ruas é um erro? Antes que isso aconteça, sigam as orientações dos médicos, da ciência e de autoridades que não têm medo de falar a verdade”, afirmou.

Apesar dos ataques que vem sofrendo do presidente Jair Bolsonaro, João Doria atingiu seu objetivo. A troca de farpas entre ambos ganhou repercussão nacional, dando ainda mais visibilidade política para o governador.

Essa visibilidade vem sendo construída desde o início da chegada da pandemia do coronavírus no país. Desde o avanço do Covid-19 e sendo São Paulo seu grande epicentro, Doria realiza coletivas de imprensa diariamente às 12h30.

O governador aparece num púlpito no Palácio dos Bandeirantes. Chega acompanhado do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), e do secretário estadual da Saúde, José Henrique Germann.

Até a semana passada, o médico David Uip sempre esteve nas coletivas. Porém, após Uip contrair coronavírus, ele foi substituído pela médica Helena Sato, que trabalhava na equipe de Uip.

Apesar da mudança, o tom das coletivas não muda. Começa com informações técnicas e, aos poucos, Doria dá um tom político ao seu discurso, tendo o presidente como alvo.

Isso ficou bastante evidente na semana passada, quando João Doria ao anunciar o resultado de seu exame de coronavírus, que deu negativo, apresentou a íntegra do laudo médico aos meios de comunicação.

O gesto foi uma crítica a Jair Bolsonaro, que após se submeter a dois exames em meio a 22 contaminados de sua comitiva que foi aos EUA, afirmou que o resultado deu negativo, mas não apresentou o exame.

João Doria também tem sido o grande protagonista na coordenação das ações dos governadores, o que também o ajuda a ganhar espaço no noticiário.

Embora ainda seja cedo para projetar 2022, a narrativa e o posicionamento construído por João Doria combinada com o sumiço da oposição – que parece não saber o que fazer – coloca Doria, por ora, como o “anti-Bolsonaro” no tabuleiro.