Foto: Divulgação/Harvard

Uma das principais funções de um governo democrático é formular políticas públicas que melhorem a vida dos cidadãos.  A  cobrança de impostos, por exemplo, tem como objetivo central a formação de um ativo financeiro capaz de possibilitar ações governamentais que beneficiem a sociedade como um todo.  Infelizmente,  apesar da lógica ser essa, poucos governos no mundo atingem um nível satisfatório de atendimento das demandas da maioria,  contribuindo para o bem-estar geral.

Nos últimos dias temos assistido incrédulos ao avanço do coronavírus pelo mundo. Chegando agora ao Brasil, impressiona a força com a qual se alastra causando uma preocupação generalizada ao governo e à sociedade.

Os olhos de muitos brasileiros se voltam para o governo federal e para os governos estaduais para ouvir as  medidas planejadas em prol do bem comum. Nem todas são aceitas como necessárias; muitos discordam de algumas delas, inclusive opinando que as propostas parecem frágeis e atrasadas; outros, acham-nas  suficientes.

Uma parcela grande da população já entendeu que, ficando em casa, no isolamento, as chances de contaminação diminuirão drasticamente. Mesmo assim,  muitos não obedecerão a essa regra enquanto ela não se tornar lei, sujeitando a quem infringi-la sanções de justiça.

O inusitado, eu diria, histórico,  é que vivemos uma situação em que temos que assumir uma parte de sua solução e  não podemos delegar toda a responsabilidade do problema a outros. Não serão somente os políticos que a resolverão. Serão os cidadãos que, já cientes do que deve ser feito, optarão em ignorar ou acatar as recomendações já alertadas pelas comunidades médicas de outros países.

A decisão é individual, mas o impacto no desrespeito dessas recomendações se tornará coletivo. Um indivíduo que resista à ciência, às recomendações médicas e ao bom senso pode vir a passar ileso pela doença. Porém, esse mesmo individuo poderá infectar outros que não contam com uma compleição  que os permita sobreviver ao vírus. Chega a ser um absurdo que a decisão de se cuidar e cuidar dos outros precise partir de uma diretriz oficial, mesmo com a enorme disseminação do #fiqueemcasa.

Aos governos, cabe criar todas as formas de alívio econômico possíveis, atos de compensação financeira para com aqueles que não poderão se manter. E, o mais importante de tudo, preparar a rede pública hospitalar para tratar com a eficiência necessária aqueles que foram afetados mais severamente.

As principais políticas virão  do Estado, enquanto a  sociedade pode pressionar por um tipo ou outro de medidas necessárias a certos grupos, regiões ou mercados. O bom senso, o respeito ao próximo, o cuidado com o ambiente no qual cada um está inserido e a compaixão para com os necessitados não precisariam, em tese, ser obrigatórios para que sejam assumidos por todos.

Publicado no Correio Braziliense, em 21/03/2020.

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.