Foto: Wagner Meier/Getty Images

Sem diálogo e cooperação, as sequelas da pandemia serão piores

É recorrente usar a II Guerra Mundial como exemplo de gestão de crise. Quando a Inglaterra, finalmente, descobriu que o confronto com a Alemanha nazista era inevitável, rendeu-se aos fatos.

Para liderar o esforço de participar de um conflito que não queriam, os britânicos chamaram Winston Churchill, o único homem então capaz de unir governo e oposição — ambos mais civilizados que os nossos — em torno de um projeto comum. Mas não foi apenas Churchill que ganhou a guerra. Todos se uniram e trabalharam em conjunto. Não é o que ocorre por aqui.

O acaso nos meteu, provavelmente, na maior crise sanitária desde a gripe espanhola e nos pegou desprevenidos para enfrentar o desafio. Contudo, estamos há mais de dois meses com a ameaça da pandemia do novo coronavírus nos rondando, e, desde então, apesar das medidas tomadas, os avanços não são os necessários. O bate-boca institucional, entre a União e os estados, dificulta o esforço comum que deve ser feito. Não é disso que precisamos.

Para simplificar o que está por vir, vamos considerar três cenários: o pior possível, um intermediário e um benigno. O pior cenário seria algo parecido com o que ocorre com a Itália. O melhor cenário seria, simplesmente, um brutal arrefecimento do processo de contaminação. O bom senso nos mostra que podemos ter algo intermediário. Mesmo assim, caminhamos em uma jornada sem mapas com a expectativa de que, no fim de abril, nosso sistema de saúde possa entrar em colapso. O SUS está pressionado e a economia já sofre com a desaceleração. Como vencer os desafios de atender os doentes, evitar uma contaminação generalizada e, ainda, esquivar-se de uma recessão de imensas proporções?

“O cenário que se desenha pode ser ainda mais grave por causa da confrontação institucional”

Não temos convencimento das soluções que devem ser adotadas. Falta-nos direção. Pior é a ausência de uma narrativa mobilizadora. Não há uma comunicação efetiva, já que as esferas públicas estão em conflito e, muitas vezes, sem convicção acerca do que fazer. Assim, o cenário que se desenha pode ser ainda mais grave por causa da crise institucional que está instalada. Em meio a um ambiente de disputa entre poderes, nos três níveis, imagine os desdobramentos do aumento de contaminados com sintomas graves diante das limitações de nosso sistema de saúde. Não julgo aqui o mérito das iniciativas de cada ator político. Mas o fato inconteste é que a crise do coronavírus exige serenidade, entendimento e ação coordenada da União, estados e municípios.

Tenho a certeza de que um conflito institucional não nos ajuda. O Brasil necessita de um ambiente de unidade nacional para vencer a epidemia e seus efeitos. O Congresso terá de aprovar medidas. União, estados e municípios terão de implementar iniciativas em conjunto. As agendas eleitorais dos atores políticos — em especial o presidente da República e os governadores do Rio e São Paulo — precisam ficar de lado perante o drama que vamos viver. O fim da história, por melhor que seja a ação dos governos, será dramático para milhões que perderão o emprego e para centenas de milhares de pessoas que serão acometidas pelo vírus. Eles merecem o compromisso, a união e uma ação integrada dos poderes públicos.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.