Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

A noção de realidade em cada pessoa é construída a partir da vivência, da observação dos fatos do cotidiano e da análise de fato e consequência. Quem tem “os pés no chão” geralmente é alguém que consegue, de forma  fria e racional, observar o que ocorre em sua vida, em seu entorno, para  criar hipóteses ou adquirir a consciência sobre as consequências de seus atos dentro de um contexto social.

Essa seria uma forma normal de seguir a vida. Quase todo mundo pensa e age dentro dessa ótica. “Aprendemos” o que poderá ocorrer quando não pagamos uma conta, quando brigamos com alguém. Observamos também que certos comportamentos dos outros  se dão por questões simples ou por leituras particulares de determinados fatos.

Ao longo das últimas décadas, o brasileiro  viveu isolado em sua região e em sua comunidade. Em um país continental, a noção que cada um tem do país em que vive foi forjada muito mais a partir de um alinhavado  de informações do que necessariamente de observações de cada um.

Criamos uma imagem do que é o Brasil a partir do que observamos no comportamento dos outros e a partir de certas construções simbólicas  colocadas à nossa disposição. E nada teve um impacto maior na construção da realidade brasileira no nosso imaginário do que as novelas. Durante muitos anos, brasileiros de diferentes regiões aprenderam sobre o Rio de Janeiro a partir de novelas; assim como tantos outros aprenderam sobre o Nordeste a partir desses mesmos teledramas. A percepção sobre o rico, o pobre, o mocinho e o herói nacional foram forjadas em nossas mentes vindas de analogias criadas em cima de personagens “históricos”. O mais importante, porém, foi como o impacto de enredos novelescos mirabolantes contaminou a nossa própria forma de “criar” enredos acerca de potenciais acontecimentos da vida real.

Assim como numa novela, nada ocorre por acaso. Numa obra de ficção, o vilão tende a ser exageradamente inteligente, as vítimas exageradamente burras e os mocinhos exageradamente perceptivos e valorosos. Os mocinhos das novelas sempre estão um passo adiante em, por pura intuição, identificar o que está “realmente” por trás dos fatos. Esse “realmente” faz com que a leitura que muitos tinham de como os fatos se desenrolavam se mostrasse um erro para eles, dando-lhes a ideia de que deixaram de entender sinais singelos de que algo muito maior e maligno estava disfarçado ou escondido.

Essa formatação de raciocínio impregnou gerações de brasileiros que a transplantaram  para a realidade do mundo. Para algumas pessoas, tudo o que pode ocorrer de bom ou de ruim não acontece como consequência de inúmeros fatores , mas porque o vilão foi mais astuto do que todos em determinado momento.  E, para que tudo acabe bem, o mocinho, ridicularizado por ter identificado a tramoia toda antes da hora, acaba desenvolvendo uma tese única que, no fim, se mostra correta e salva o dia.

Quando nos vemos diante do extraordinário, como esta pandemia global do coronavírus, essa forma de desenvolver o raciocínio mostra-se mais presente do que nunca. Podemos simplesmente observar os fatos apresentados e buscar entender que uma doença fugiu do controle e se espalhou globalmente por pura falta de preparo, senso de urgência e falha de planejamento. Nesse caso, os detentores do planejamento seriam os culpados por não terem tratado o assunto com a seriedade necessária.

No entanto, existem aqueles que buscam outro tipo de explicação para o que está ocorrendo. Essa explicação com as matizes e as características novelescas, aparece quando a existência de um vilão maligno por trás é dada como uma certeza, e que o mocinho, entendendo tudo mais do que os outros — graças a uma percepção intuitiva anormal –, irá nos tranquilizar. Para quem acredita que o avanço do coronavírus foi uma conspiração chinesa para controlar a economia global, o que estamos vivendo não passa de uma novela onde logo tudo estará explicado e o triunfo do mocinho será a consequência óbvia. Vemos membros de governos seguindo essa linha, jornalistas outrora respeitados e “formadores de opinião” buscando explicar que nada é o que parece, e que você, humilde cidadão, que está em casa preocupado, está por fora das reais maquinações existentes no mundo.

A síndrome de noveleiro que afeta brasileiros não existe apenas por aqui. A mesma existe nos EUA, onde as séries de TV ocuparam o espaço das novelas no processo educativo do americano sobre como o mundo funciona. A realidade tende a ser mais cruel do que a arte, mais direta no ponto e violenta em seu desfecho. Não existem soluções grandiosas que partam apenas da capacidade intuitiva de um certo fulano. Mesmo Winston Churchill, entendendo quem era Hitler antes de todos, precisou liderar um planejamento minucioso para que a vitória viesse. A liderança para problemas reais passa, invariavelmente, pela transparência, pelo reconhecimento da gravidade e pelo planejamento. Nada resiste a um bom plano. Já o improviso, originado de uma boa intuição, pode botar tudo a perder.

 

Twitter: @ThiagoGdeAragao

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