Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Apesar de ainda estarmos a mais de dois anos das eleições presidenciais, o tema da sucessão é recorrente. Tanto pelo cenário de polarização aguda das narrativas políticas quanto pela tentativa das forças políticas tradicionais de se reorganizarem ante o bolsonarismo.

Mesmo com a elevada tensão política, o horizonte eleitoral parece estreito. Dificilmente algum nome novo, salvo fato extraordinário, além dos que estão sendo cogitados, deve se apresentar de forma competitiva em 2022. Fazendo uma analogia com a Fórmula 1, temos três equipes fortes. A primeira delas é a do governo, tendo à frente Jair Bolsonaro. Sua situação de favorito é alavancada pelas expectativas econômicas, por sua força nas redes sociais e pelo controle da máquina federal. Bolsonaro só não será competitivo se cometer erros demais. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, postulante em potencial do universo bolsonarista, está amarrado ao destino do presidente. Apenas uma grave crise entre eles poderia levá-lo a assumir a candidatura. O centro dispõe de duas personalidades com visibilidade: Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria. Um tem popularidade; o outro tem a administração estadual nas mãos. São dois nomes fortes como pré-candidatos, porém, como disse o grande mestre Didi, “treino é treino, jogo é jogo”.

No universo da esquerda existe um espectro de fragmentação em três vertentes: o ex-presidente Lula, do PT; o ex-ministro Ciro Gomes (PDT); e alguma surpresa no campo do PCdoB ou do PSOL. Lula é candidato, mas depende de uma improvável anulação de sentenças contra ele na Justiça. E, sem o ex-­presidente no páreo, a hegemonia do PT para liderar as esquerdas fica comprometida. Ciro, cada vez mais agressivo, tenta ser o anti-Bolsonaro. Precisará, contudo, de mais estrutura psicológica e política e menos verborragia para se tornar competitivo. As surpresas no campo da esquerda podem sair da chamada “nova geração”, na qual se destacam os governadores Flávio Dino (PCdoB-MA) e Rui Costa (PT-BA). Mas ambos carecem de densidade e de narrativas de âmbito nacional.

Analisando-se esses três campos de organização política, o único candidato competitivo e com lugar garantido na disputa, salvo evento extraordinário, é Bolsonaro. Os demais ainda são especulações. Em comparação à eleição passada, o cardápio de surpresas dos próximos anos mostra-se limitado. O andamento da economia, mesmo não se revelando espetacular, trabalha a favor do bolsonarismo. Os riscos judiciais do governo parecem pequenos, mesmo com o incômodo do caso Queiroz.

A cena eleitoral em 2018 decorreu de fatores inéditos, como a Operação Lava-­Jato e o desastre provocado pela gestão Dilma Rousseff (PT). As surpresas para 2022 parecem depender de fatos extraordinários, que ainda nem estão no radar. Outro fator que limita o surgimento de nomes inesperados é a escassez de narrativas diante da dualidade do confronto “bolsonarismo X lulismo”. Resta saber se tais narrativas não se esgotarão até 2022, o que abriria espaço para novidades. Assim, quem tem a intenção de surpreender nas próximas eleições presidenciais deve criar uma narrativa convincente, que ainda não existe.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.