Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

As raízes do 8 de Março, oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 como Dia Internacional da Mulher, marcaram, inicialmente, a luta pela igualdade de gênero nos direitos trabalhistas, mas atualmente é um símbolo político da mobilização e da luta das mulheres contra o machismo, a misoginia e a violência. Apesar das inúmeras conquistas, ainda muito o que ser feito.

“Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”

Simone de Beauvoir

É comum a associação da data com o incêndio que ocorreu na Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, no dia 25 de março de 1911, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens, devido às más instalações elétricas da fábrica e portas fechadas, que trouxe à tona as condições insalubres de trabalho enfrentadas pelas mulheres na Revolução Industrial. Na época, as jornadas de trabalho poderiam durar até 16h por dia, frequentemente por 6 dias na semana.

Entretanto, há registros de reivindicações anteriores, como no dia 26 de fevereiro de 1909, também em Nova York, onde cerca de 15 mil mulheres foram às ruas clamar por melhores condições de trabalho.

Em agosto de 1910, a Europa deu início uma série de Conferências Internacionais das Mulheres Socialistas em Copenhage, na Dinamarca, que propôs a criação de um movimento sindical e socialista dedicado à questão das mulheres e seus direitos.

Em março de 1917, um grupo de operárias russas saiu às ruas para manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, que serviu de pontapé para a Revolução Russa. O protesto ocorreu no dia 23 de fevereiro do antigo calendário russo (8 de março no calendário gregoriano). O 8 de março é comemorado entre os soviéticos como a celebração “da mulher heróica e trabalhadora”.

No Brasil atual, ainda é comum as mulheres enfrentarem desafios e dificuldades desde o acesso à educação até prejuízos no mercado de trabalho caso engravidarem, além da falta de informação a cerca dos direitos sexuais e reprodutivos femininos. Estima-se que 30% das mulheres deixam o trabalho por conta dos filhos, enquanto apenas 7% dos homens o fazem.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que metade das mulheres grávidas são demitidas até dois anos da volta da licença-maternidade. Muitas vezes a gravidez é utilizada como prerrogativa para reduzir o salário das mulheres que recebem, em média, 20% menos que homens ocupando o mesmo cargo, sobretudo no setor privado.

Além disso, um estudo do Think Olga – think thank que discute questões de gênero – chamado “Chega de Fiu Fiu”, indicou que 33% das mulheres brasileiras já foram assediadas no ambiente de trabalho.

As formas de assédio variam, mas compartilham a característica de não haver consentimento por parte da mulher, gerando constrangimento e desconforto. Podem ser uma “cantada” de um colega, cliente ou superior, convites para sair, presentes inoportunos e até mesmo contato físico forçado, como abraços, beijos ou atitudes mais íntimas. Muitas s são disfarçados de brincadeiras e, no trabalho, podem ser  acompanhados de ameaças de demissão ou promessa de promoção.

Importante lembrar que tanto o assédio quanto a importunação sexual são crimes no Brasil. A dificuldade maior se encontra em denunciar esses acontecimentos, que por serem baseados em relações de poder (hierárquicas), podem causar prejuízos para a vida profissional da mulher que realiza a denúncia. Inclusive, a Justiça, assim como os outros poderes, está inserida nessa lógica estrutural. Do total de juízes Federais do país, 70% são homens, o que reflete o cenário de dificuldade de acensão de carreira.

O 8 de Março é um convite. Um convite para reflexão sobre as nossas atitudes enquanto mulheres e homens para combater o silenciamento que ainda existe e normatiza as desigualdades e violências sofridas pelas mulheres. É um convite político para que cada vez mais sejam implementadas políticas públicas efetivas no âmbito da segurança, saúde e educação, um grito para que hajam cada vez mais mulheres ocupando cargos de decisão nas organizações.

O mês de março é um chamado para que mais mulheres entrem na política para poderem legislar sobre os seus lugares de fala. É um clamor para que os homens se responsabilizem compreendendo que a desigualdade de gênero não é uma questão individual, restrita às relações privadas, e sim, um problema estrutural da nossa sociedade que afeta a saúde pública, o desenvolvimento social e econômico do país e sobretudo, a vida das mulheres, que são hoje 54% da população brasileira.

Neste domingo há programações do Dia da Mulher em vários estados brasileiros. A mobilização e a memória são forças que movem a sociedade. Que o dia de hoje represente mais que flores para todos nós.