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Dados do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) apontam que a dívida global chegou a um recorde histórico de US$ 253 trilhões (aproximadamente R$ 1 quatrilhão) e o Brasil aparece, entre os países da América Latina, com a maior dívida fiscal. Pesquisa da IIF, uma associação global de instituições financeiras com sede em Washington, revela ainda que uma década de baixas taxas de juros propiciou o crédito a governos, empresas e indivíduos, aumentando o endividamento a um nível dramático, que corresponde a 322% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Índice esse, que deve permanecer em alta por conta do atual contexto econômico.

O recorde está relacionado sobretudo aos empréstimos adquiridos por governos e empresas não financeiras. E quanto mais altos os níveis de endividamento, maior o risco de inadimplência em qualquer ambiente econômico. Ainda que não haja uma ameaça de recessão, a economia mundial vive um momento delicado com projeções tímidas de crescimento para este ano: cerca de 2,5%.

Na avaliação do Banco Mundial, existe o risco de uma nova crise da dívida global, o que leva governos e bancos centrais entenderem que taxas de juros historicamente baixas sejam incapazes de compensar outro colapso financeiro generalizado. Isso porque, ao levar em consideração os últimos 50 anos, percebe-se quatro ondas de acumulação de dívida, sendo a última (que teve início em 2010) tida como a maior, mais rápida e de amplo aumento da dívida global desde a década de 1970. Some-se a isso o fato de que as três ondas anteriores desencadearam crises financeiras com impacto em várias economias em desenvolvimento e emergentes.

O diretor de Pesquisas sobre Sustentabilidade do IIF e principal autor do relatório Global Debt Monitor, Emre Tiftik, afirma que aumento da dívida global foi significativo e não há sinais de diminuição no futuro próximo. Nesse sentido, há dois principais motores que impulsionaram o aumento do endividamento, sublinha: os Estados Unidos (devido ao aumento da dívida fiscal e corporativa) e a China (por conta do aumento da dívida de empresas não financeiras).

De acordo com Tiftik, os altos níveis de endividamento elevam as preocupações no que diz respeito ao financiamento da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que, entre seus 17 objetivos, contempla a redução da pobreza e a luta contra as mudanças climáticas. Ele alerta também que, apesar dessa situação consistir em uma relevante oportunidade para investidores, nações com pouca capacidade de endividamento podem enfrentar dificuldades para concluir trabalhos em áreas como energia, telecomunicações, transporte e fornecimento de água.

O Brasil conta com o maior endividamento público entre os países emergentes após o Líbano (155% do PIB). O índice brasileiro subiu de 62% do PIB em 2014 para 88% em 2019. Emre Tiftik entende que a aprovação e a implementação efetiva da reforma da Previdência é imprescindível para conter o aumento da dívida pública antes que ela se torne um problema ainda maior para o Brasil.

Dívida Pública Federal 2019
Em 2019, a Dívida Pública Federal totalizou R$ 4,249 trilhões, segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Economia. Esse montante significa um incremento de 9,59% ante 2018, quando a dívida fechou a R$ 3,877 trilhões. Mesmo com esse aumento, o Plano Anual de Financiamento (PAF) do ano passado foi cumprido.

Já a Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) teve o estoque ampliado em 1,22% em dezembro, subindo de R$ 4,034 trilhões para R$ 4,083 trilhões, em virtude da apropriação positiva de juros (R$ 30,26 bilhões) e da emissão líquida de R$ 19,07 bilhões. Por outro lado, o estoque da Dívida Pública Federal Externa (DPFe) registrou queda de 3,4%, fechando dezembro em R$ 165,68 bilhões (US$ 41,10 bilhões), dos quais R$ 150,37 bilhões (US$ 41,1 bilhões) da dívida mobiliária (em títulos no mercado internacional) e R$ 15,31 bilhões (US$ 3,8 bilhões) da dívida contratual (com bancos e organismos internacionais).

Os fundos de investimentos (26,68%) figuravam em dezembro com um dos maiores detentores da dívida pública, cujo estoque foi de R$ 1,065 trilhão para R$ 1,089 trilhão de novembro para dezembro. Na sequência aparecem os fundos de Previdência (24,89%); as instituições financeiras (24,69%); os investidores estrangeiros (10,43%); o governo (3,97%); as seguradoras (3,94%); e outros (5,41%).

Geração Z endividada
Pesquisa sobre os hábitos financeiros da Geração Z realizada em 2019 pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), pelo SPC Brasil e pelo Sebrae em todas as capitais brasileiras, revela que seis em cada dez jovens da Geração Z, de 18 a 24 anos, já possuem cartão de crédito em seu nome. E sobe para 8 em cada 10 se for feito um recorte somente entre as classes A e B. Com a chegada de bancos digitais e fintechs no Brasil houve uma intensificação no acesso dos jovens a produtos de crédito que antes eram mais restritos. Dentre os que possuem cartão de crédito, 34% têm um cartão digital com abertura e operação por meio da internet.

As principais dívidas dos brasileiros são: parcelas do crediário/carnê (26,4%), os empréstimos pessoais/consignados (20,7%), as parcelas de financiamento de automóvel (20,6%) e as parcelas de financiamento da casa própria (18,7%, aumentando para 32,8% na Classe A/B).

Dados de pesquisa realizada pela agência de crédito americana TransUnion dão conta que os membros da Geração Z, nascidos entre 1996 e 2005, gastam e acumulam mais dívidas em seus cartões de crédito ante os Millennials. 41% dos Gen Z entre 18 e 24 anos contava com pelo menos um cartão de crédito em 2019, em comparação com 34% dos Millennials na mesma faixa etária em 2012. O consumidor médio da Geração Z devia aproximadamente US$ 2 mil em 2019, enquanto o consumidor médio Millennial, na mesma faixa etária, devia algo em torno de um terço menos em 2012.

Contudo, ainda segundo a pesquisa, os Gen Z são melhores pagadores do que a geração anterior, ainda que tenham mais dívidas e consumam mais usando cartão de crédito. Ao menos 50% dos jovens têm uma pontuação de crédito de pelo menos 661 pontos; e na mesma faixa etária (18 a 24 anos), somente 39% dos Millennials possuíam pontuação de crédito similar.

A diferença no uso do cartão de crédito entre gerações está relacionada à estabilidade da economia americana nos últimos anos, à baixa taxa de desemprego e aos avanços tecnológicos. Primeira geração de nativos digitais, a Geração Z acredita em uma experiência contínua de consumo em todas as esferas da vida.