Foto: Daniel Jayo/AFP

Nesta semana, o futuro da relação Brasil–Argentina começa a ser, definitivamente, desenhado. Desde a eleição de Alberto Fernández, em outubro de 2019, os dois países travam uma batalha retórica que apenas os distancia. Além disso, a crise econômica no país vizinho impacta as exportações brasileiras.

No ano passado, a Argentina perdeu 8,8% do seu comércio com o Brasil. De acordo com o Ministério da Economia, a queda nas exportações da Argentina para o Brasil correspondeu à venda de ônibus, caminhões e polímeros plásticos. Em janeiro, o comércio bilateral alcançou a cifra de US$ 1.342 bilhão, resultado da contração de 16,8% das exportações ao Brasil.

Para tratar deste e de outros assuntos das agendas bilateral e regional, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Felipe Solá, estará em Brasília na quarta-feira (12) para se reunir, pela primeira vez, com o seu homólogo, Ernesto Araújo. Não será uma reunião fácil. Os dois conversaram por telefone em dezembro e não disfarçaram a tensão. São muitos os pontos a separar os atuais governos.

No mesmo dia, o ex-governador de Buenos Aires e ex-candidato presidencial Daniel Scioli assumirá formalmente o cargo de embaixador da Argentina no Brasil. Nos dias 4 e 5, ele e sua equipe fizeram várias reuniões com empresários brasileiros em São Paulo. Scioli mantém excelente diálogo com o ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB), e o vice-presidente da República, Hamilton Mourão.

Scioli foi indicado justamente para recompor as relações entre os dois países. Daí o encontro, também em São Paulo, com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Scioli acredita que a proximidade entre Skaf e o presidente Jair Bolsonaro contribuirá para o adensamento das relações.

Scioli também fez questão de entrevistar-se com o presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos (Anfavea), Luis Carlos Moraes. Os dois acordaram que é necessário potencializar as exportações de veículos entre a Argentina e o Brasil.

Divergências importantes, porém, exigirão muita negociação e estratégia. Uma delas diz respeito à proposta de Scioli de desdolarizar o intercâmbio bilateral, adotando reais e pesos nas trocas comerciais. O tema é considerado sensível para o Itamaraty e o Ministério da Economia do Brasil.

Os dois países terão de tratar ainda de aspectos relacionados à ratificação do Tratado de Livre Comércio Mercosul – União Europeia e à flexibilização das regras do bloco sul-americano, temas amplamente defendidos pelos empresários brasileiros. Há preocupação com as intenções do presidente argentino de somar forças com a França e outros sócios europeus para renegociar o Tratado de Livre Comércio com a União Europeia, atrasando ainda mais a sua entrada em vigor.

Bolsonaro também não gostou da medida tomada por Fernández que retira das Forças Armadas as operações de combate ao crime organizado. Sem falar nas questões ideológicas, que os opõem fortemente.

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