Foto: Isac Nóbrega/Flickr/PR

O afastamento entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ficou mais evidente na semana passada durante a cerimônia de lançamento da pedra fundamental do colégio militar do exército na capital paulista.

Convidado para o evento, Doria não compareceu, sendo representado pelo secretário estadual de Segurança Pública, o general João Camilo Campos, e pelo comandante da Polícia Militar, o coronel Marcelo Vieira Salles.

Outros fatores que reforçam o afastamento entre Bolsonaro e Doria foi a declaração do governador chamando o presidente de “populista” depois que ele propôs zerar os impostos federais se os Estados abrissem mão do ICMS que incide sobre os combustíveis. Bolsonaro respondeu a Doria dizendo que sua proposta “não é populismo, é vergonha na cara”.

Após essa troca de farpas, na última sexta-feira (7), o governo federal, por meio da Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex), barrou o financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento ao Estado de São Paulo. O empréstimo no valor de R$ 1,274 bilhão seria destinado a investimentos na Sabesp.

Os últimos acontecimentos envolvendo Jair Bolsonaro e João Doria combinado com a aproximação de Bolsonaro com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Paulo Skaf (MDB), colocam Bolsonaro e Doria em campos opostos no maior colégio eleitoral do país.

Skaf é um dos principais adversário de João Doria em São Paulo, tendo concorrido ao Palácio dos Bandeirantes na última eleição, quando ficou em terceiro lugar. No segundo turno, disputado por Doria contra o então governador Márcio França (PSB), Skaf esteve no palanque de Márcio.

Diante da aproximação entre Jair Bolsonaro e Paulo Skaf, a saída do presidente da FIESP do MDB, partido cada vez mais próximo a João Doria no Estado – Henrique Meirelles (MDB) é o secretário estadual da Fazenda – é apenas uma questão de tempo.

Neste cenário, a tendência é que Paulo Skaf ingresse na “Aliança pelo Brasil”, partido criado por Bolsonaro, e concorra novamente a governador.

A aliança entre Bolsonaro e Skaf já é batizada como “BolsoSkaf”, substituindo o “BolsoDoria” criado no segundo turno das eleições de 2018 em São Paulo.

O gesto de Bolsonaro em direção a Skaf ocorre depois que o presidente perdeu aliados no Estado. No ano passado, deixaram o bolsonarismo os deputados federais Alexandre Frota (PSDB-SP) e Joice Hasselmann (PSL-SP).

Além disso, a saída de Bolsonaro do PSL levou o presidente nacional do partido, deputado federal Luciano Bivar (PSL-PE), a intervir no diretório paulista e destituir o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) da presidência estadual da sigla.

A aliança “BolsoSkaf” deve gerar reações no PSDB. Especula-se no ninho tucano que João Doria usará sua influência no setor empresarial para tentar “derrubar” Paulo Skaf do comando da FIESP, principalmente porque a aliança de Skaf com Bolsonaro tem rendido muitas críticas internas no setor industrial.

O movimento de Doria para tentar enfraquecer Skaf já deve estar sendo articulado, pois o prestígio que Jair Bolsonaro possui somado ao capital político que Skaf acumulou nas últimas eleições é visto como um obstáculo as pretensões eleitorais de Doria em 2022, seja concorrendo à reeleição ou disputando o Palácio do Planalto.

O “BolsoSkaf” também pode ameaçar o prefeito e pré-candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), nas eleições de outubro, principalmente se Bolsonaro e Skaf derem suporte, por exemplo, a eventual candidatura do apresentador da TV Bandeirantes, José Luiz Datena (Sem partido).

Embora a aproximação em relação a Paulo Skaf tenha gerado críticas junto a base social bolsonarista, o movimento foi uma jogada estratégia inteligente de Jair Bolsonaro.

O prestígio de Bolsonaro combinado com a força da máquina da FIESP – hoje nas mãos de Skaf – além do potencial de rachar a base de João Doria, constrói uma pré-candidatura a governador de São Paulo bastante competitiva (Skaf fez 21% dos votos válidos em 2018), o que poderá impor obstáculos ao projeto presidencial de Doria, pois o risco de Skaf avançar sobre o eleitorado tucano é considerável.

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