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Quando nos comunicamos, seja por expressão oral ou escrita, usamos analogias, metáforas e gestos para enfatizar uma mensagem. Essas figuras de linguagem, próprias de cada cultura, enriquecem a nossa fala e nosso texto, pois agregam emoções, cores, sensibilidades e história dando ênfase ao discurso, aproximando-o mais do interlocutor.

Falamos um português aprendido de nossos colonizadores, influenciado por línguas indígenas e africanas, e ainda por outras, como o francês e o inglês.  Diferenciamo-nos da nossa língua-mãe e até criamos  piadas sobre os portugueses pela literalidade com a qual falam a língua que virou nossa, pelo colonialismo que exerceram sobre nós.

A comunicação também está sujeita a leis da interpretação. Em certas comunicações ou textos mais subjetivos, a  interpretação do que alguém escreveu ou falou  é pessoal, e aí reside a força e a riqueza da poesia e dos textos literários, pois eles dão margem a inúmeras interpretações.

É também bastante comum ouvir alguém dizer algo e, logo em seguida, adicionar um “na verdade eu quis dizer…”.

No dia a dia, não sentimos o aspecto negativo disso. Pois já estamos imbuídos de um hábito interpretativo que nos oferece atalhos de interpretação. No entanto, quando isso chega a níveis mais altos e formais, como na comunicação entre o  governo e a sociedade, a panaceia de interpretações esvazia o real sentido do que foi dito, o valor de certas mensagens e, principalmente, o dano que certas palavras podem gerar.

Quando Roberto Alvim, no bizarro e inacreditável vídeo gravado recentemente, tentou dar um ar faraônico e revolucionário para o novo programa de incentivo à cultura, a falta de tato e de bom senso o fez descer até o degrau mais baixo da civilidade, citando o grande ícone da desinformação, da manipulação de conteúdo e da distorção das palavras, Joseph Goebbels.

Pior do que isso, não são apenas as técnicas de manipulação que Goebbels inventou, mas o propósito para o qual isso foi criado. A fim de justificar o injustificável, o defensor do regime mais maligno da história moderna agia assim em prol da eliminação de determinados povos e da hierarquização artificial da raça humana, quando só existe uma.

Alvim apresentou uma situação sintomática na modernidade brasileira, onde o absurdo é jogado ao vento e a interpretação popular pode validá-lo  ou não. Já ouvimos isso sistematicamente nesse governo — explicações e acusações de que frases e narrativas foram tiradas do contexto –, mas também ouvimos isso pesadamente durante os anos do Partido dos Trabalhadores, quando a manipulação (mal feita) de narrativas visava livrá-los do maior ato de corrupção já cometido neste hemisfério.

Na política, a narrativa é o grande instrumento com o qual o poder é apresentado e infiltrado na mentalidade daqueles que apoiam determinados grupos. No entanto, a única forma de se defender de mensagens brutais,  absurdas ou visivelmente mentirosas se daria via a própria Educação e o desenvolvimento interpretativa dos dados de forma desapaixonada. Não devemos aliviar narrativas esdrúxulas em nome do apreço que podemos vir a ter pelo interlocutor. Isso faz apenas com que a chama da ignorância queime mais usando nosso combustível da insensibilidade.

Educação é, acima de qualquer coisa, compreender de forma racional que aquele que adoramos pode cometer e dizer idiotices, e que aqueles que odiamos podem apresentar um raciocínio lógico de vez em quando.

O grande mal da política se origina de toda arte da manipulação verbal e se dá pela paixão que desenvolvemos para com aqueles que não passam de funcionários da sociedade e que devem, acima de qualquer coisa, entregar resultados. A boa política não passa de um serviço pragmático onde os anseios são recebidos e devolvidos e não necessariamente onde as intenções são eternamente explicadas sem resultados práticos.

A loucura de Roberto Alvim poderia ser um ponto de mudança na forma como passamos a analisar o que é dito. Certamente não será, pois as nossas interpretações  pessoais, preenchidas pelas justificativas próprias dos erros alheios,  impedirão que a crítica seja usada como a verdadeira arma da sociedade contra absurdos e manipulações, que teve, historicamente como grande expoente, o monstro Joseph Goebbels.

 

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.