Foto: Sérgio Lima/Poder 360

Compreender o Brasil nunca foi tarefa fácil. Cada interpretação dos fatos é altamente personalizada e se encaixa com a expectativa que cada um tem do governo. Com o objetivo de ajudar nessa discussão de uma forma positiva, preparei uma pauta com 10 pontos específicos que exporei a seguir. Em meio a um número crescente de acontecimentos, olhar para alguns marcos pensando no contexto político de uma forma geral e particular pode ajudar na avaliação de cada um nós sobre o que poderá ser o ano de 2020 no país.

1. O ciclo de reformas (administrativa e tributária) continuará em 2020. Portanto, o eixo Ministério da Economia/ Congresso seguirá sendo o ponto nevrálgico do sucesso ou do fracasso do governo. Como vimos em 2019, Paulo Guedes teve de liderar diretamente a sua equipe nos diálogos com Rodrigo Maia e a base aliada .E a roda andou bem nos trilhos também graças ao brilhante trabalho de Rogério Marinho na Secretaria de Previdência do Ministério. Isso terá de seguir em 2020 para que o Ministério da Economia dependa menos de interlocutores envolvidos em agendas não técnicas e pragmáticas.

2. Haverá ampliações de verbas impositivas no orçamento. Isso eleva o poder do Congresso. Consequentemente, ele poderá seguir tomando as rédeas, mantendo o Executivo e o Legislativo sob sua dependência — como vimos em 2019 –, ao invés de ser o contrário. As negociações históricas do orçamento sempre deram ao Executivo poder de pressionar aliados em relação a projetos específicos como contrapartidas. Hoje, esse quadro mudou, dando mais poder e autonomia para o Congresso em questoes de orçamento.

3. Eleições municipais reduzirão a atividade parlamentar para aproximadamente 120 dias. Isso aumentará a pressão e a ansiedade nas negociações para todos os temas de interesse do governo. Quando o Congresso percebe ansiedade por parte do Executivo, o custo do apoio inflaciona (cargos, verbas extras, apoio do governo para projetos específicos etc.) colocando mais pressão no Executivo.

4. Além disso, as eleições municipais também mudarão a geografia da influência parlamentar, já que vários deputados e senadores necessitam eleger prefeitos para consolidar focos de apoio. Naturalmente, vários deputados disputarão eleições para prefeito. Para o Presidente, não criar atrito com parlamentares torna-se ainda mais sério, já que ter prefeitos aliados em áreas importantes será crítico para expandir zonas de influência visando as eleições de 2022. A oposição buscará ocupar o maior número de prefeituras com o mesmo intuito, pois cada prefeitura age como ponta de lança para atuações em busca de votos na campanha presidencial.

5. A agenda de privatizações e concessões é a principal ponte para o governo atrair investimento externo — além de mostrar profissionalismo no processo de gerenciamento destes. O principal ponto levantado em reuniões com investidores estrangeiros é a ausência de um cronograma confiável e executável de forma transparente. Essa percepção vem de anos, e, para mudá-la, o governo precisa ser preciso na narrativa e na execução. O impacto da narrativa funciona internamente, mas não funciona para o investidor externo. Essa agenda aliada a uma boa execução poderá gerar um segundo foco consistente de boas notícias que não estejam ancoradas apenas no avanço das reformas.

6. Crescimento da economia é o ponto central para que a confiança do investidor no Brasil se consolide. Ele olha indicadores positivos, porém ainda não viu isso sendo traduzido (consistentemente) em crescimento. A expectativa de 2.5% para 2020 é uma grande notícia e certamente levará a um aumento de fluxo. No entanto, ações para a diminuição da burocracia (operação nas mãos do competente Paulo Uebel/Ministério da Economia) é o que viabilizará um fluxo contínuo. Isso tenderá a fortalecer (ainda mais) o Ministério da Economia, potencializando o seu papel de gerador de positividade dentro do governo e rebaixando outros Ministérios a papeis periféricos no processo de gerar avanços e confiança.

7. Existem poucos personagens que representam o termômetro e a estabilidade (ou instabilidade) na política brasileira. Acompanhar as inter-relações entre eles passou a ser crítico em um governo onde a personalidade tem uma importância maior do que a coesão geral de todos seus membros. Devemos observar e tentar ler nas entrelinhas o relacionamento do Presidente Bolsonaro com Paulo Guedes, Sergio Moro, Rodrigo Maia e com o STF. Devemos focar também no relacionamento de Paulo Guedes com Tarcísio de Freitas, Rodrigo Maia, David Alcolumbre e Roberto Campos Neto.

8. O debate da sucessão na Câmara e no Senado será intenso, de bastidores, com eventuais erupções públicas e afetará o andamento de todos os projetos de interesse do governo. Devemos sempre lembrar do erro estratégico e primário do ex-Ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante quando prometeu apoiar Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara e, por debaixo dos panos, estimulou a candidatura de Arlindo Chinaglia. Isso desencadeou uma série de eventos que pulverizou o governo e conduziu-o ao seu fim. Rodrigo Maia e David Alcolumbre tentarão buscar a reeleição, apesar do regimento não permitir. A mudança das regras do regimento possui baixa chance de prosperar. De qualquer forma, caso não prospere, tanto Maia quando Alcolumbre tentarão eleger seus sucessores enquanto o governo vai procurar alavancar nomes mais alinhados ao Planalto. O Centrão tentará lançar seus candidatos. Isso, certamente será um componente importante em toda a votação que envolvê-los, pois tentarão obter apoio para seus candidatos em troca de votos. E esse cabo de guerra poderá acirrar todos os debates que ocorrerem no Parlamento.

9. As redes sociais seguem sendo um termômetro (muitas vezes equivocado! ) de sucesso ou de fracasso da classe política. No entanto, o conjunto das reações nas redes passou a ser um poderoso formulador de opiniões (geralmente rasas) que afetam a dinâmica do governo e hipnotizam alguns membros do Executivo. O Ministério da Economia segue tímido nas redes sociais com um comportamento mais informativo do que confrontacional, pois sabe que depende da menor polarização possível para fazer sua agenda prosperar.

10. As eleições nos EUA impactarão diretamente o Brasil. A política externa atual está dividida em três eixos: conceitual (Itamaraty), oscilante (Executivo e parte de aliados avulsos), onde narrativas algumas vezes emocionais dominam a abordagem em relação aos EUA, China, Franca, Argentina etc e o eixo pragmático (Ministério da Infraestrutura, Ministério da Economia, Ministério da Defesa e Ministério da Agricultura). Trump segue como o grande favorito e sua reeleição manteria o status atual de visão de mundo do governo brasileiro. Caso um Democrata vença, o reposicionamento brasileiro forcará uma mudança radical na narrativa, comportamento e objetivos a fim de proteger o interesse comercial brasileiro.

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.