Foto: Juca Varella/Agência Brasil

O Brasil assiste ao confronto entre bolsonaristas e lulistas. Radicais, os dois blocos antagônicos promovem uma escalada prejudicial à democracia. Intransigência, intolerância, ausência de diálogo, beligerância e autoritarismo. Entre ambos, um contingente amorfo levado de roldão

Duas considerações gerais podem ser feitas sobre a polarização política ora em curso no País. Ela é, simultaneamente, legítima e maléfica.

Também é possível afirmar que não se trata de um fenômeno isolado. Boa parte do mundo convive com polos antagônicos.

Da polarização radicalizada, sobressai a intransigência. De onde brota a intolerância, que bloqueia o diálogo, que gera a beligerância.

Pensar diferente, ter visão oposta não é algo deletério. Da confrontação honesta de pensamentos pode surgir a síntese construtiva.

No utópico mundo ideal, cada um expressaria seu ponto de vista. Honestos, estaríamos dispostos a confrontá-lo com a argumentação divergente. A razão seria o ponteiro a indicar a melhor alternativa.

Óbvio, isto não acontece. A partir do meio em que nascemos e crescemos, formamos nossas convicções. Via de regra, elas se tornam absolutas e, portanto, inamovíveis ao longo da vida.

No debate, que vira confrontação, interessa apenas os argumentos que sustentem meu ponto de vista. Se algo contraria o que penso, pouco importa se em base lógica, trato de afastar e rotular o debatedor, que vira contendor.

Aqui, chegamos à política.

Ela é o instrumento encontrado para mediar, sem confrontos bélicos, os antagonismos. Exercida com equilíbrio e algum grau de honestidade é o caminho para organizar pacificamente, ou com o mínimo de conflitos, as nações democráticas.

Mas, quando o pensamento único predomina, ela perde a funcionalidade. Nada mais interessa a não ser a conquista do poder. Pior. A eternização no poder.

Chegamos ao Brasil hodierno.

A partir da aglutinação em polos opostos e radicalizados, emerge no País a era dos moucos. Não interessa o que tu digas, sempre de ti discordarei.

Seita, quero uma pra mim

Atualmente, dois grupos agregam-se em oposição mútua. Nas pontas, grosso modo, 30% seguem o lulismo. Outros 30%, o bolsonarismo. Entre ambos, um contingente amorfo.

Incorreto considerar os dois extremos uniformes em ideias e pensamentos. Aglutinam-se, cada um, por algumas convicções imbricadas e pela gastura raivosa com o outro lado.

A grande força de Lula e Bolsonaro é descobrir as convergências destes expressivos contingentes da população e transformá-los em seitas. Lula protagonizou esta confluência lá atrás, nos estertores da ditadura militar.

Bolsonaro o fez há pouco. Os chamados direitistas, liberais e conservadores não se converteram repentinamente às suas próprias crenças, mas descobriram no bolsonarismo a conveniente força aglutinadora.

Quem conhece as chamadas esquerdas sabe que nelas há tendências mil. A habilidade de Lula é, do mesmo modo, torná-las coesas.

Mas, se são legítimas, por que ambas são maléficas? Porque bloqueiam o diálogo, interditam o pensamento crítico e flertam com o autoritarismo.

Minha voz é meu guia

Ouvir com atenção revela uma das características mais perspicazes do ser humano. De encontro a este atributo, as redes antissociais maximizam a surdez estridente e doutrinam néscios e incautos. Quem muito fala, ouve apenas sua própria voz.

Bolsonaristas e lulistas, de um modo geral, não querem dialogar. Apaixonam-se por suas convicções absolutas. Deleitam-se com o eco de suas vozes. Odeiam as opiniões divergentes.

A tragédia é que são maioria.

A impossibilidade do diálogo e do cotejamento crítico de ideias é solo fecundo para o autoritarismo. Lulistas e bolsonaristas, feito sequazes, ouvem apenas a si mesmos e ao seu líder – que sempre será perdoado, faça o que fizer.

Na chamada esquerda, trata-se de uma característica atávica. A exaltação da democracia, presente nos discursos da sinistra, serve como canto da sereia, já que, historicamente, seus próceres sempre apoiaram regimes autoritários.

O bolsonarismo, menos elaborado ideologicamente, corteja o autoritarismo de maneira direta. À luz do dia, enaltece ditaduras e seus instrumentos de repressão.

Quem apoia um dos dois lados não se torna automaticamente um defensor do autoritarismo. Mas o efeito é o mesmo, pois, instalado o regime de exceção, a maior parte de seus patrocinadores perde sobre ele o controle.

Pelo ineditismo de suas dimensões, cenário perturbador.

Restaria aos 40% que não se alinham a um ou outro flanco, e que são presumivelmente democratas, reunirem-se em torno de uma ideia moderada, mostrarem-se dispostos ao diálogo e serem capazes de exercitarem o pensamento crítico e a tolerância. Mas, em tempo de moucos, quem está disposto a ouvir?

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