Foto: Divulgação / Equipe João Doria

Ao contrário do que ocorreu em eleições municipais anteriores, a disputa de 2020 nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro terá um impacto significativo sobre o cenário político nacional.

Fora o interesse do bolsonarismo de conquistar essas duas capitais estratégicas, estará em jogo o futuro político de importantes atores com pretensões presidenciais, caso dos governadores João Doria (PSDB-SP), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSC-RJ), no Rio de Janeiro. Sem falar no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), no ex-presidente Lula (PT) e na chamada frente de esquerda.

Na capital paulista estará no tabuleiro não apenas a reeleição do prefeito Bruno Covas (PSDB) no município mais cobiçado do país, mas também o projeto presidencial de Doria, que desponta como um dos grandes protagonistas do chamado centro democrático.

Sabendo da importância que São Paulo tem para as ambições de Doria, o bolsonarismo deve fazer o possível para derrotá-lo na maior vitrine tucana do país. Até pouco tempo, a candidata do Palácio do Planalto na capital paulista era a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP). Porém, após seu rompimento com o governo Bolsonaro, a deputada começa a se aproximar dos tucanos. Na semana passada, por exemplo, Joice teve um encontro com Bruno Covas. A aproximação entre eles decorre de articulações de Doria, que deseja construir a chapa Covas/Joice, unindo PSDB e PSL.

Doria atraiu ainda para seu lado outro representante do bolsonarismo dissidente, o também deputado federal Alexandre Frota (SP), que trocou o PSL pelo PSDB. Embora o bolsonarismo conte com uma base social conservadora bastante articulada e com poder de mobilização em São Paulo, o racha no PSL que levou à saída de Bolsonaro da sigla para criar a Aliança pelo Brasil deixou o presidente sem um candidato natural.

Nesse cenário, e diante das incertezas em relação à obtenção do registro da Aliança a tempo de concorrer em 2020, uma opção para o bolsonarismo poderia ser a filiação do apresentador da TV Bandeirantes José Luiz Datena (Sem partido) a alguma legenda aliada para assumir a vaga de candidato do Planalto em São Paulo.

Fora Doria e Bolsonaro, as forças de centro-esquerda e de esquerda também jogam suas fichas na capital paulista. Mas, neste momento, a possibilidade de uma união em torno da frente de esquerda é remota. Além de o ex-governador Márcio França (PSB) também estar na disputa, dificilmente o PT abrirá mão de ter candidatura própria na cidade (reduto de Lula). O nome mais forte para o posto é o do ex-ministro Alexandre Padilha, embora a ex-prefeita e ex-senadora Marta Suplicy (Sem partido) tenha passado a figurar na bolsa de apostas, caso se filie novamente ao PT. Não bastasse isso, PCdoB, PSOL e PDT devem encarecer seu passe nas negociações.

No Rio, a eleição do próximo ano também terá uma forte influência sobre o cenário político nacional. Fora o fato de ser o reduto eleitoral da família Bolsonaro, a capital fluminense será uma espécie de laboratório da frente de esquerda, que deve unir PSOL, PT e PCdoB.

Doria, por sua vez, também jogará suas fichas para tentar impor uma derrota no reduto eleitoral do presidente. E ainda contarão os movimentos que outro importante ator da política realizará no estado: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Conforme ocorre na capital paulista, o bolsonarismo, mesmo com a força da sua base social no Rio, não possui um candidato natural na capital fluminense. Embora o senador Flávio Bolsonaro (RJ) – que recentemente se desfiliou do PSL após o presidente Bolsonaro, seu pai, decidir criar a Aliança pelo Brasil – tenha o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) como seu candidato, não há unidade no bolsonarismo em torno desse nome, principalmente após o racha no PSL.

Outro dado é que tanto no Rio quanto em São Paulo o PSL é controlado por aliados do presidente nacional do partido, Luciano Bivar (PE), o que dificulta uma composição com o bolsonarismo. Uma alternativa para a família Bolsonaro seria uma aliança com o prefeito e pré-candidato à reeleição, Marcelo Crivella (Republicanos), indicando o vice, que, nesse caso, seria o deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), conhecido como Hélio Bolsonaro.

Além de o bolsonarismo ter de enfrentar a união das esquerdas em torno do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), o governador do estado, Wilson Witzel (PSC), que se elegeu surfando na “onda Bolsonaro” em 2018, afastou-se do presidente após declarar publicamente que sonha disputar o Palácio do Planalto em 2022. Sonho também de Bolsonaro.

O rompimento entre Bolsonaro e Witzel e a desfiliação de Bolsonaro do PSL levaram o partido, através de Luciano Bivar, a iniciar negociações para que o governador fluminense se filie ao PSL. Não bastassem todos esses problemas envolvendo o presidente da República em seu reduto eleitoral, Doria e Maia fazem fortes movimentações.

Doria, por exemplo, filiou recentemente ao PSDB Gustavo Bebianno, ex-ministro do governo Bolsonaro, e o suplente do senador Flávio Bolsonaro, o empresário Paulo Marinho. Maia, por sua vez, trabalha para que o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), seja novamente candidato.

Conforme podemos observar, estarão em jogo nas capitais paulista e carioca os interesses de importantes players da sucessão presidencial de 2022.

Além do desejo de Bolsonaro de impor uma derrota a rivais diretos em capitais com grande visibilidade política, o ex-presidente Lula (PT) testará sua força e a capacidade das esquerdas de ainda serem eleitoralmente viáveis. Já Doria, Maia, Witzel e o PSL testarão seus primeiros movimentos dentro do objetivo de construir uma opção centrista à polarização bolsonarismo x lulismo.

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