Foto: Átila Alberti/Gazeta do Povo

A polarização política no Brasil não diminuiu após a vitória de Jair Bolsonaro. De certa forma, a narrativa de um contra o outro alimenta ambos, na medida em que a política, de uma maneira geral, perde credibilidade no mundo. Carregar a narrativa política de tons emocionais passou a ser a única alternativa quando a racionalização do processo político em um país como o Brasil (e em muitos outros) nos leva a um labirinto cada vez mais confuso de se decifrar.

Lula se tornou icônico pela paixão que conseguiu despertar no Brasil e no mundo e também pelo repúdio que gerou a partir das revelações da Lava Jato. Durante todo o período de sua  prisão, vimos um Partido dos Trabalhadores desorganizado – e devoto ao ex-presidente – de uma forma que confirmou o que muitos já sabiam: Lula é maior do que o PT e o PT gosta disso.

A campanha “Lula Livre” era entoada com pouco alento, principalmente por um grupo da classe artística que ainda enxergava um injustiçado na figura do ex-presidente. Num país onde as novelas se mostraram a principal forma de demonstração artística, nada mais esperado do que uma interpretação noveleira de injustiças, conspirações e orquestrações internacionais contra Lula.

A decisão de se conceder liberdade a Lula deve mudar a forma de agir do PT e, consequentemente, a resposta de Bolsonaro e dos seus fiéis eleitores a esse novo momento. O alvo de Lula será o fim da Ficha Limpa, possivelmente usando argumentos tão esdrúxulos quanto aquele utilizado por Evo Morales para afrontar a constituição boliviana e se candidatar novamente: Direitos Humanos. O que se desenha é que a busca de Lula pela candidatura em 2022 poderá prejudicar o andamento das reformas no Congresso.

O Centrão tem se mostrado cada vez mais fluido no seu posicionamento em relação a medidas vindas do Executivo. A possível dissolução de municípios não sustentáveis economicamente não caiu bem com parlamentares que dependem da força de vários prefeitos dessas localidades para angariar votos. Como o PT perdeu uma grande quantidade de municípios sob sua administração, Lula tentará seduzir essas pequenas cidades e esses mesmos parlamentares do Centrão para poder reconstruir uma base de apoio mais sólida.

A busca por apoio poderá deixar muitos no Centrão mais reticentes em avançar com reformas mais controversas, como a administrativa e a tributária. Ainda vejo o governo e o presidente da Câmara Rodrigo Maia (por sua capacidade de articulação interna) como elementos-chave na organização de um grupo grande o suficiente para sustentar as aprovações, no entanto, o elemento Lula poderá mudar a velocidade das coisas.

O PT apostará na polarização com mais força, utilizando Lula como porta-voz de todo e qualquer assunto passível de crítica que parta do governo. O governo terá duas opções: responder sistematicamente, criando um antagonismo que satisfará seus apoiadores nas redes sociais, ou ignorar qualquer provocação vinda de Lula ou do PT para que as reformas possam ocorrer antes do início das eleições municipais.

O mais provável, é a primeira opção. Assim, a narrativa de antecipação do clima eleitoral de 2022 reinará. Bolsonaro possivelmente aproveitará as provocações de Lula para sugerir, cada vez com mais veemência, que será candidato à reeleição. Em contrapartida, a busca pelo fim da Lei da Ficha Limpa pode atrair para o PT alguns partidos de centro que foram fortemente afetados pela regra.

Assim, com um clima eleitoral que será fantasiado de “esquerda contra direita”, o pacote de agendas de costumes poderá retornar com mais força, fazendo com que a animosidade entre Executivo e Legislativo se acentue, uma vez que, ao longo de 2019, o Parlamento deixou claro que não pretende avançar nesses assuntos.

Lula dificilmente conseguirá gerar grandes mobilizações pelo país, com os sindicatos já desidratados pela falta de dinheiro. No entanto, ele influenciará as relações diplomáticas entre Brasil e países que possuem líderes que já foram alinhados a ele. A Argentina, por exemplo, utilizará a imagem de Lula como retaliação a qualquer provocação vinda do lado brasileiro.

A força de Paulo Guedes será crítica para que o clima eleitoral não se inicie cedo demais. Porém, o papel de fiel da balança ficará, mais uma vez, com o Congresso. A agenda de reformas e privatizações deve ser solidificada e bem articulada para que qualquer tentativa de ideologizar o debate seja sufocada pelo poder pragmático de nossas necessidades imperativas de reformas.

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.