Antônio More/Arquivo/Gazeta do Povo
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Os alertas que vêm de Paris e Santiago indicam que é preciso se antecipar. As turbas, rapidamente aglutinadas pelas redes sociais, podem voltar a se movimentar, como fizeram por aqui em 2013. Após cinco anos de PIB encolhido, estão todos cansados de recessão

A aprovação da reforma das aposentadorias encerra simbolicamente a primeira fase do Governo Bolsonaro. Do ponto de vista econômico esta etapa não foi um sucesso, mas está longe de ter sido um desastre.

Juros baixos e inflação controlada se juntam a outros fundamentos macroeconômicos ajustados. O que deslustra esta avaliação é o desemprego alto (cedendo, mas muito lentamente) e o PIB claudicante.

Neste cenário, a reforma da previdência constitui-se em elemento indispensável. Talvez mais importante do que a redução de custos que ela proporcionará, é a expectativa de que o Brasil tem jeito.

Rebentos birrentos

Os economistas sempre dizem que há dinheiro sobrando no mundo. Para atraí-lo, é preciso convencer os donos dos dinheiros de que o Brasil é um bom destino para seus investimentos.

Mas quem olha de longe fica na dúvida. Vale a pena colocar dinheiro num país governado por um sujeito desbocado, que governa em zigue-zague e segue gurus de teses excêntricas?

A pergunta é pertinente, pois o improvável mandatário brasiliano não deixou claro, passados dez meses de mandato, qual o rumo de seu mandato. Um governo pode tender para um ou outro lado. Mas precisa ter rumo.

Bolsonaro tem rumo definido no seu desdém ao meio-ambiente, na sua visão flexível dos direitos humanos, em sua admiração por ditadores. Cacoetes do capitão que virou presidente.

Suas ações, no entanto, provocam instabilidade. Como confiar num mandatário que desdenha da política e deixa fluida sua relação com o Parlamento? E que é capaz de brigar com o partido que lhe dá (dava) 100% de apoio?

Tão ou mais grave: como confiar no capitão-mor se suas decisões são guiadas pelo filhotismo? Quando um pai adota como postura defender todas as atitudes de seus filhos pequenos, tem-se um pai equivocado, mas que prejudica sobretudo seus próprios filhos.

Se este pai é presidente da República, tem-se um pai equivocado, mas que prejudica todo o país. Birras e brigas do trio de rebentos são transformadas em lutas fraticidas em detrimento das políticas de Estado que deveriam nortear um governo democrático.

Crescimento é o que interessa

Se não lhe bastassem os entreveros internos, que o capitão-mor atrai para si, há os solavancos internacionais. França, Equador, Líbano e, agora, o Chile demonstram que as inquietudes dos povaréus atravessam fronteiras.

É historicamente precipitado afirmar que o liberalismo falhou. Igualmente precoce afirmar que os movimentos populares são orquestrados pela chamada esquerda.

Fato é o descontentamento da maioria que habita os andares de baixo nos dois hemisférios. Fato é que, a partir do advento da internet, os paióis do descontentamento estão mais inflamáveis.

Em que pesem teorias conspiratórias, o populacho quer condições financeiras de desfrutar o mundo de bens e serviços ofertados cada vez mais abundantemente. Quer entrar na festa, hoje exclusiva dos habitantes dos andares superiores.

Bolsonaro acenou com a aplicação do artigo 142 da Constituição na hipótese de haver protestos. O caput do dispositivo permite ao mandatário chamar as Forças Armadas para garantir a lei e a ordem.

Se dispõe de informações que as manifestações serão de monta, terá mesmo que se preparar. Os exemplos de Paris e Santiago são alertas vívidos.

Porém, antes de pegar em armas e arrostar a turba que ainda não saiu às ruas, mais oportuno é ouvi-la. O caminho para evitar turbulências é deixar o País crescer da forma mais equânime possível.

Como disse Aldo Rebelo numa entrevista recente, o crescimento une trabalhadores e empresários. Receita simples, embora difícil de executar.

O capitão-mor pode colocar a tropa de prontidão, acirrando ânimos belicosos. Outra alternativa é acertar a ordem unida com sua equipe econômica para evitar solavancos, como os que sacodem o Chile.

Para isto, precisa ordenar ao Posto Ipiranga que trate de gerar emprego e renda. Há empresários dispostos a investir e desempregados em busca de trabalho.

Após cinco anos de PIB encolhido, estão todos cansados de recessão.

De sua parte, o presidente precisa parar com os vitupérios e cessar suas escaramuças com moinhos de vento. Para ajudar na recuperação econômica, basta a Bolsonaro não atrapalhar.

* Itamar Garcez é jornalista