Carlos Figueroa/Wiki Commons

Os recentes protestos registrados no Chile e no Equador e o cenário de crise institucional que atinge a Bolívia, o Peru e a Venezuela têm gerado uma guerra de narrativas no Brasil — hoje ainda restritas às redes sociais — sobre a possibilidade de esse clima de radicalização se reproduzir no país.

Utilizando os protestos ocorridos no Chile, que guardam semelhança com o cenário de junho de 2013 no Brasil (quando estudantes começaram protestando contra o aumento das tarifas do metrô, contagiaram outros setores sociais e levaram milhares de pessoas às ruas), as forças de esquerda tentam atribuir às políticas de ajuste fiscal realizadas no Chile pela chamada Escola de Chicago como responsável pelo aumento da desigualdade.

Já os setores à direita, principalmente a base bolsonarista, atribui o cenário de instabilidade no Chile e no Equador a uma suposta articulação da esquerda latino-americana – leia-se Foro de São Paulo –, cujo objetivo seria criar um clima de radicalização na América Latina.

Em meio a essa guerra de narrativas, uma questão merece reflexão: o governo Jair Bolsonaro corre o risco de ser alvo de protestos como o registrado no Chile? Bolsonaro pode ter pela frente “um junho de 2013”, conforme ocorreu na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) naquele ano?

Apesar de o desemprego no Brasil atingir 13 milhões de brasileiros, representando um risco de insatisfação social se não houver uma solução para o problema a longo prazo, hoje é remota a possibilidade de o governo enfrentar grandes protestos. Além de o bolsonarismo ser a única força política nesse momento com base social e capacidade de mobilizar pessoas a irem às ruas para defender o presidente, a economia brasileira, mesmo que lentamente, emite sinais de recuperação.

A aprovação da Reforma da Previdência, por exemplo, gerou um clima de euforia entre os agentes econômicos, o que sinaliza, a médio prazo, boas perspectivas de atração de investimentos privados. Além disso, a geração de empregos com carteira assinada está crescendo. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), tivemos em setembro números positivos que não eram registrados no mês desde 2013.

Outras medidas, como a antecipação da liberação dos saques do FGTS e do 13º do programa Bolsa Família,  incentivam o consumo e geram um ambiente de otimismo na opinião pública. Essa melhora do clima social tem mostrado um viés de alta na popularidade do presidente Bolsonaro. Nas sondagens divulgadas recentemente pelos institutos Ipespe e Ideia Big Data, a avaliação “ótimo/bom” do governo registrou 33%, tendo crescido três pontos percentuais em relação aos levantamentos realizados anteriormente.

Porém, não devemos descartar totalmente a ocorrência de novos protestos no Brasil. Em vias de ser solto pela Polícia Federal (PF), o ex-presidente Lula (PT), mesmo desgastado, ainda possui força para mobilizar seguidores e manter o cenário de radicalização política no país.

Além disso, conforme ocorre hoje no Chile, na era da democracia digital protestos costumam surgir de uma hora para outra sem um motivo aparente. Como os movimentos de rua não possuem comando centralizado, sendo mais espontâneos, prever protestos é uma tarefa cada vez mais difícil para os governos. Como consequência, as ondas de opinião se movem com grande rapidez, o que possibilita a eclosão de propostas do dia para a noite.

Com a população tendo cada vez mais acesso à internet, e diante da popularização de smartphones e de aplicativos como WhatsApp, Facebook, Twitter e Instagram, o surgimento de protestos passa a significar uma ameaça permanente para os governos de uma forma geral. Isso porque os instrumentos de comunicação hoje estão cada vez mais difusos.

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