Ueslei Marcelino / REUTERS
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O presidente brasileiro apostou em Macri, Netanyahu e Trump, todos com problemas em seus países. Caso deixem o poder, o Brasil vai perder tempo reconstruindo pontes

O apreço pelo confronto é uma característica forte do presidente Jair Bolsonaro. Neste sentido, ele difere da média dos últimos mandatários eleitos.

Durante a campanha eleitoral, é comum que candidatos a cargos no Executivo adotem a agressividade como forma de marcar território e fragilizar o adversário. Eleitos, adotam estilos conciliatórios e buscam as alianças.

O objetivo é formar maioria e garantir estabilidade. Fernando Henrique e Lula, ex-presidentes que completaram seus mandatos, agiram neste sentido.

Já o capitão-mor parece estar em guerra permanente, sem armistícios. Seu viés beligerante sobressai o tempo todo.

No campo das alianças, o presidente também tem fugido ao figurino. Eleito há quase um ano, não formou maioria parlamentar.

Ao contrário, está perdendo aliados e apoiadores de primeira hora numa velocidade proporcional às diatribes que pespega quase todos os dias. Reportagem da jornalista Carolina Freitas, do Valor desta quinta, 26, exibe um quadro desalentador para os bolsonaristas (“Aliados tomam distância de Bolsonaro”).

Diante de uma democracia jovem e conturbada como a brasileira, dir-se-ia que isto não vai dar certo. Porém, como vivenciamos uma situação política inédita nesses 34 anos de democracia contínua, o desfecho do Governo Bolsonaro é incerto.

Com sua obsessão por priorizar seus filhos em detrimento das políticas de governo, o mandatário vai descartando todos que desagradem o trio encrenqueiro e encrencado. Como se não acreditasse em mais ninguém, afora o trio 01, 02 & 03, afronta uma regra elementar de gestão: cercar-se de quem sabe criticar e dizer não.

 

Política canhestra

No campo externo, porém, a mão desajeitada do presidente tem se mostrado mais evidente. Em vez de traçar uma política externa e apoiar políticas de Estado, optou por alinhar-se a mandatários do momento – e atacar chefes de Estado em potencial.

Foi assim com Mauricio Macri. O presidente da Argentina pode surpreender, mas a indicação é de que vai perder a eleição. Enquanto isto, Bolsonaro detratou o peronismo, que pode voltar ao poder.

No caso de Israel, idem. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, tem mostrado dificuldades de se manter no poder – tanto pela fragilidade eleitoral, como pelas acusações de corrupção.

Com Donald Trump, presidente dos EUA, a relação flutua entre a admiração e a submissão. Entretanto, o espalhafatoso presidente norte-americano, além da ameaça de impeachment, pode não se reeleger.

Isto sem contar as estocadas belicosas contra Emmanuel Macron, da França, e Angela Merkel, da Alemanha.

Sim, Trump assume o mesmo padrão de comportamento. A diferença é que o presidente dos EUA comanda o maior Exército do mundo e dirige a economia mais pujante do planeta.

Na política, os interesses estratégicos devem se sobressair às simpatias pessoais. Bolsonaro parece adotar o reverso desta premissa.

 

* Itamar Garcez é jornalista