Marcello Casal Jr / Agência Brasil
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E do Coaf, da Receita Federal, do Ministério Público? Afinal, foi o trabalho eficiente de delegados, auditores e procuradores que levou à prisão de Lula, arquirrival de Bolsonaro. Ou será exatamente este o receio?

O presidente Jair Bolsonaro chegou à Presidência da República por uma conjugação de fatores. Um deles foi a Operação Lava-jato.

Graças às ações do Coaf, da Receita Federal, do Ministério Público e da Polícia Federal os brasilianos conheceram talvez maior esquema de corrupção da história tupiniquim. A ojeriza à corrupção, representada pelo PT e partidos companheiros, empurrou os eleitores nativos para quem representasse o reverso do modelo petista.

Deputado de pouca expressão, o capitão-mor encampou a antítese do PT. Com a imagem de honesto e respeitador dos valores cristãos, adotou como bandeiras o combate ao politicamente correto, à criminalidade e, claro, aos corruptos.

A partir do impulso adequado das redes sociais, defenestrou a chamada esquerda do Poder Central. Virou um improvável presidente da República.

Ou seja, os órgãos de controle e investigação do Estado, com o apoio imprescindível do Judiciário, cumpriram a tarefa de afastar seu principal rival, o ex-presidente Lula. A PF e os demais órgãos estatais são, assim, parte integrante da vitória bolsonariana, pois abriram caminho ao improvável.

Por que, então, Bolsonaro dedica-se com afinco a derribar o atual staff policial e de controle, que pela primeira vez na história do Brasil colocou brancos, ricos e poderosos na cadeia?

Apenas o desejo de mostrar quem manda? Ou alguma coisa a ver com as investigações que apontam a proximidade de sua família com os milicianos do Rio de Janeiro?

Em entrevista à Folha de S. Paulo na terça, 3, o presidente negou esta última possibilidade. Porém, diante das evidências já conhecidas, inegável que a hipótese é plausível.

Controlar os controladores

Afinal, sem o trabalho de órgãos de controle e investigação juntos, Lula não estaria preso e o presidente Michel Temer teria aprovado a reforma da previdência durante seu curto reinado. Dilma Rousseff talvez tivesse completado seu tumultuado mandato.

Se a família Bolsonaro não está envolvida em malfeitos, nada melhor do que o aval da Polícia Federal. Os Bolsonaros seriam investigados e nada de ilegal seria apontado. Ganhariam um atestado de bons antecedentes.

Do contrário, o presidente pode ter mesmo motivos para enquadrar a PF e similares. Afinal, as revelações de atividades suspeitas continuam brotando.

Nesta quinta, 5, O Globo revelou que o ex-assessor e amigo Fabrício Queiroz atuou para desvincular a família do presidente de milicianos cariocas. Com a PF controlada, esta e futuras revelações seriam barradas.

Se conseguir seu intento de colocar na chefia destes órgãos gente de sua confiança, talvez o mandatário consiga frear as investigações que lhe mordem os calcanhares. Seria um fato inédito na jovem democracia brasiliana.

Controlar os controladores pode ter sido desejo de Luiz Inácio Lula da Silva – bem como o de qualquer investigado poderoso. Mas não se tem notícia de que o líder operário tenha sido tão ousado.